
A edição 2026 do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, um dos mais tradicionais do mundo e o principal evento do gênero na França, corre o risco de não acontecer. Após uma semana turbulenta, com a decisão de sindicatos, associações e coletivos de manter o boicote à próxima edição, prevista para janeiro, a imprensa francesa noticiou a possibilidade de o festival não ocorrer. O jornal Libération chegou a publicar nesta quarta-feira (19), que a edição havia sido definitivamente cancelada, mas a informação foi refutada pela organização do Festival de Angoulême em nota divulgada no mesmo dia.
No comunicado, a organização destaca que está agindo para facilitar a implementação de soluções para preservar a integridade e sustentabilidade do evento. A declaração ainda expressa a “esperança de que as discussões em curso levem a uma solução para que a edição de 2026 possa acontecer, no melhor interesse do ecossistema dos quadrinhos e por respeito aos fãs apaixonados por essa forma única de leitura, um público que sempre conseguiu cativar ao longo de seu meio século de existência”.
O panorama, no entanto, não é de conciliação. Na terça-feira (18), as principais editoras de quadrinhos francesas, em reunião da Associação Nacional de Editores Franceses (SNE), decidiram manter o boicote proposto pelos artistas e cancelar a participação no evento. A isso se soma o fato de o Ministério da Cultura ter anunciado na quarta-feira que reduziu em 200 mil euros o financiamento do Festival de Angoulême.

Já nesta quinta-feira (20), os financiadores públicos do evento pediram à organização o cancelamento da próxima edição. “Parece-nos muito complicado garantir a realização da edição de 2026 sem os editores e os autores”, declarou o prefeito de Angoulême, Xavier Bonnefont, durante uma coletiva de imprensa. “São os autores, com suas editoras, que fazem o festival acontecer. Sem eles e sem o público, não há festival, e sem festival não há subsídio público”, completou. O pronunciamento contou com a presença de autoridades locais e um representante do Estado. Metade do orçamento do festival é de financiamento público.
Até o momento, a associação fundadora do festival não se pronunciou sobre o pedido do prefeito de Angoulême.
Crise sem precedentes
Desde a última edição do festival, em janeiro deste ano, a empresa que é responsável pela gestão de Angoulême, 9e Art+, vem sendo alvo da comunidade artística. As críticas são relacionadas à gestão interna, especialmente após a demissão de uma funcionária que denunciou um caso de abuso sexual, ocorrido durante a edição de 2024, além de acusações de falta de transparência, nepotismo e mercantilização do evento.
No início de novembro, uma nova onda de manifestações ganhou força após o resultado do edital para definir a futura gestão do evento, revelado no dia 8. A associação fundadora do festival havia solicitado que os dois finalistas, a 9e Art+ e a Cité internationale de la bande dessinée et de l’image, conduzissem o evento em conjunto.

A repercussão das ameaças de boicote dos artistas, que também passaram a contar com o apoio de editoras como Dargaud, Dupuis, Le Lombard, Urban Comics, Casterman e Glénat, fez com que a associação voltasse atrás na decisão do processo seletivo. Em 13 de novembro, um novo processo seletivo foi anunciado, com a formação de um novo comitê de avaliação.
No entanto, a ideia foi rejeitada e os financiadores públicos designaram a Associação para o Desenvolvimento dos Quadrinhos em Angoulême (ADBDA), uma organização mediadora fundada pelo Ministério da Cultura, para gerir um novo edital de projetos que atendam aos critérios de transparência e equidade exigidos por autores e editores.





