Crise em Angoulême: “Sem mudanças, é muito provável que a edição de 2026 seja a última”, dizem quadrinistas

Vinte vencedores do Grand Prix assinaram carta aberta para alertar que o festival "corre risco de acabar".

11 novembro 2025
Por Fora do Plástico

ATUALIZAÇÃO | 11/11/2025 às 14h

De acordo com o jornal Libération, diversas editoras decidiram, em reunião emergencial na noite de segunda-feira (10) aderir ao boicote ao Festival de Angoulême. Dargaud, Dupuis, Le Lombard, Kana, Urban Comics, Casterman, Gallimard BD, Futuropolis e Sarbacane indicaram que a situação atual não permitirá mais sua participação na edição 2026 do, apesar dos gastos já realizados pelas editoras.

Foto: Morgane Jacob | France Télévisions

Em meio a uma crise de imagem, o Festival de Angoulême recebeu novas ameaças de boicote da sua edição 2026, prevista para ocorrer de 29 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026. Uma carta aberta assinada por 20 vencedores do Grand Prix, um dos principais prêmios do evento, publicada nesta segunda (10) pelo jornal L’Humanité diz que “sem uma mudança rápida e profunda, é muito provável que a edição de 2026 seja a última”. Assinam o texto nomes como Riad Sattouf, Art Spiegelman, Florence Cestac, Chris Ware, Jacques Tardi e a última vencedora da premiação, Anouk Ricard

A nova onda de manifestações da classe artística francesa se deve ao resultado do edital para definir a futura gestão do evento, revelado no sábado (8). A associação fundadora do festival solicitou que os dois finalistas, a 9e Art+ e a Cité internationale de la bande dessinée et de l’image, apresentassem até 20 de novembro uma proposta conjunta para conduzir o evento.

A 9e Art+,  empresa que administra o festival desde 2007, está justamente no centro da crise em Angoulême. Comandada por Franck Bondoux, a 9e Art+ tem sido alvo de controvérsias relacionadas à gestão interna, especialmente após a demissão de uma funcionária que denunciou um caso de assédio sexual durante a edição de 2024, além de acusações de falta de transparência, nepotismo e mercantilização do evento.

Episódios relatados em reportagens dos jornais franceses Libération e L’Humanité nos primeiros meses de 2025 causaram comoção entre os quadrinistas, representantes de associações e editoras. Em abril, artistas e sindicatos se mobilizaram em uma petição de boicote à próxima edição, caso não houvesse mudanças no comando do Festival de Angoulême. A petição já conta com quase 2.500 nomes, atualmente.

Foto: Duffour/ANDBZ

Decisão aprofunda a crise

Manter a 9e Art+ à frente do evento, ainda que em uma gestão compartilhada — um meio termo, como chamou a imprensa francesa — voltou a desagradar a comunidade de quadrinhos do país. Grandes editoras se manifestaram em relação à falta de transparência do processo de seleção feito pela associação fundadora do festival. O  Sindicato Nacional das Editoras (SNE) comunicou que “sua confiança foi abalada demais para continuar a parceria após 2026, sem esclarecimentos e respostas satisfatórias sobre a nova estrutura organizadora, seu projeto, organograma, governança e acionistas”. As editoras que compõem o SNE participarão de Angoulême em 2026, por já estarem comprometidas, mas ameaçaram romper com o evento a partir de 2027.

O boicote ao festival foi endossado por várias outras organizações: MetooBD; Sindicato das Trabalhadoras e Trabalhadores da Animação e do Audiovisual; Liga dos Autores Profissionais; Sindicato Nacional dos Artistas Plásticos; Sindicato Nacional dos Editores, Autores e Desenhistas e Sindicato Nacional dos Autores e Compositores – setor de Quadrinhos. Em comunicado à Agence France-Presse, o Ministério da Cultura da França lamentou que, “mesmo com os esforços contínuos dos financiadores públicos e as expectativas de autores, editores e público, o futuro do festival ainda permaneça indefinido“. Na nota, o ministério ainda afirma que aguardará o resultado das discussões antes de tomar uma posição final.

Foto: Anne Lacaud | Sud Ouest

A Prefeitura de Angoulême, no entanto, recebeu a notícia com entusiasmo, segundo o L’Humanité. O jornal destaca que o objetivo do poder público local é “manter a edição de janeiro de 2026 a qualquer custo, a poucas semanas das eleições municipais”, para evitar prejuízos ao comércio local.

Em entrevista ao jornal Charente Libre, a presidente da associação fundadora do festival, Delphine Groux, ressaltou seu posicionamento em relação ao trabalho da 9e Art+ e de Franck Bondoux. “Chega de Bondoux bashing. O que eles querem? Que Franck Bondoux saia agora? Por quê? Ele fez bem o seu trabalho. Teve resultados. Não vejo onde está o problema. O festival não é o responsável pela crise que o setor enfrenta. Além disso, nem sabemos quem estará à frente da Cité daqui a dois anos…”, disse.


Abaixo, é possível conferir na íntegra o texto da carta aberta assinada por vencedores do Grand Prix:

O Festival de Quadrinhos de Angoulême corre risco de acabar.

Há anos, o Festival acumula escândalos, erros de comunicação e falta de ambição, tudo isso em meio a uma gestão completamente opaca. Essa deterioração prejudica gravemente todo o setor.

No entanto, o mundo dos quadrinhos precisa desse evento, que se tornou um ponto de encontro indispensável para autores e autoras, editoras, a imprensa e, claro, leitoras e leitores.

Enquanto os apelos ao boicote se multiplicam, os vencedores do Grand Prix afirmam em uma só voz que é hora de virar a página da 9e Art+, para que o Festival reencontre, com novos organizadores, os valores que construíram sua reputação internacional.

Sem uma mudança rápida e profunda, a edição de 2026 corre sério risco de ser a última.

Assinam:
Florence Cestac

Régis Loisel
Philippe Dupuy
Charles Berberian
Martin Veyron
Art Spiegelman
Jean-Claude Denis
François Boucq
Chris Ware
Franck Margerin
Jacques Tardi
François Schuiten
Baru
Blutch
Willem
Lewis Trondheim
Riad Sattouf
Hermann Huppen
Max Cabanes
Anouk Ricard
Posy Simmonds
Julie Doucet

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