[Especial]

HQ que mistura música e contos de fadas se destaca nas premiações francesas

Ambientado no século XVIII, "Soli Deo Gloria" apresenta irmãos gêmeos e sua relação com a música.

11 janeiro 2026


O Prix BD FNAC France Inter, importante prêmio de quadrinhos da temporada francesa, realizou na última semana a edição de 2026 que consagrou “Soli Deo Gloria”, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour, como o vencedor. A obra ainda não conta com previsão de lançamento no Brasil, porém vem chamando atenção no exterior. A HQ também venceu o Prix Coup de Cœur, no festival Quai des Bulles, em outubro, além de ter sido um dos cinco finalistas do Grand Prix de la Critique ACBD 2026, cuja cerimônia ocorreu em dezembro.

Ambientada no século XVIII, no Sacro Império Romano-Germânico, a história acompanha Hans e Helma, irmãos gêmeos que veem na música uma saída da vida difícil e árdua em que nasceram. Após perderem os pais, aprendem o básico sobre música em um internato, onde começam a explorar as partituras de seu tempo. Após serem adotados por um marquês, se apaixonam pelos instrumentos musicais.

O quadrinho transita entre conto de fadas e romance de formação, explorando como a arte pode mudar a vida das pessoas, além de refletir o lugar da música na época que a história se passa. A música barroca trouxe dramaticidade e emoção para as peças, que na maioria dos casos era feita para as missas.

Segundo Deveney, o título “Soli Deo Gloria”, do latim, “somente a Deus a glória”, é uma referência ao compositor Johann Sebastian Bach, que assinava a frase em algumas de suas obras, como retribuição a Deus pela sua criatividade.

Além de Bach, o quadrinista se inspirou em outro contemporâneo, Vivaldi. A escolha da ficção, segundo ele, se deu pois “escrever uma narrativa histórica fiel com todas essas figuras seria muito complexo. (…) O formato de conto de fadas me permite simplificar a história e, ao mesmo tempo, injetar um toque de originalidade”, disse ao portal L’Éclaireur da Fnac.

A escolha permitiu ao desenhista Édouard Cour, explorar a arte. “Pude fantasiar ou exagerar os personagens e cenários. Quando li o roteiro, imagens grandiosas me vieram à mente”, contou o artista. Cour observa que narrativas históricas podem limitar a criatividade pelo tamanho da pesquisa necessária.

O quadrinho também se destaca pela forma como representa a música, escolhendo um caminho abstrato que tornou a música palpável. Ao L’Éclaireur, Deveney revelou que não queria usar partituras, porque seria necessário que elas fossem de fato compostas e precisas. A dupla até cogitou usar formas de representação e escrita da música mais antigas, quanto as mais modernas, como as partituras alfabéticas experimentais de John Cage, já no século XX. Porém, de acordo com o quadrinista, “o caminho da abstração nos pareceu mais apropriado e mais ilustrativo”.

O Prix BD FNAC foi criado em 2013, após a Fnac se desligar da categoria “Prêmio do Público” em Angoulême. Assim, a rede de livrarias criou o seu próprio prêmio, que desde 2019, conta com a participação da rádio France Inter.

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