
Após meses de incerteza, o Festival de Angoulême pode finalmente voltar a ser realizado em 2027 e já tem data para acontecer: de 27 a 31 de janeiro, de acordo com informações divulgadas pela imprensa francesa nesta sexta-feira (16). A definição veio após decisão proferida na quarta-feira (14), quando o tribunal judicial de Angoulême rejeitou os pedidos da Associação FIBD, que historicamente detém os direitos do evento, e da 9e Art+, antiga gestora do festival, que buscavam impedir judicialmente a criação de um “novo Angoulême”.
Os antigos organizadores acusavam a Associação para o Desenvolvimento dos Quadrinhos em Angoulême (ADBDA) de concorrência desleal e de se aproveitar da reputação construída pela antiga gestão ao longo de décadas. A ADBDA assumiu a realização do evento a pedido dos financiadores públicos e das entidades do setor. Na ação, a FIBD e a 9e Art+ pediam a anulação da chamada de projetos que escolheu o novo organizador, o grupo Morgane, definido em abril, e uma indenização de 300 mil euros.
O tribunal, no entanto, não considerou haver qualquer indício de concorrência desleal. A corte também rejeitou a acusação de que a nova organização estaria se aproveitando da reputação do festival, uma vez que a ADBDA exigiu expressamente que a Morgane desenvolvesse uma nova identidade visual para o evento.
Em abril, quando a organização foi apresentada, já havia sido revelado que o “novo Angoulême” não poderia usar nem mesmo o nome Festival International de la Bande Dessinée (FIBD), que é uma marca registrada pela 9e Art+. As premiações também não poderão ser chamadas de “Fauve”, já que faziam referência ao gato que foi mascote do evento até 2025.
A batalha judicial se estendeu por meses, com audiências sucessivamente adiadas, desde o início do ano. O prazo final era justamente o da sessão realizada nesta quarta-feira (14), quando o tribunal também decidiu que a Associação FIBD e a 9e Art+ devem pagar 4 mil euros à Associação para o Desenvolvimento dos Quadrinhos em Angoulême (ADBDA) e 3 mil euros ao grupo Morgane, como contribuição para os custos judiciais. Ainda é possível recorrer da decisão.

Nova gestão feminina
Depois da realização de um edital lançado em 13 de janeiro, a empresa independente de produção e eventos Morgane foi escolhida, com um projeto liderado por duas profissionais da área dos quadrinhos: Marie Parisot, ex-diretora de vendas e marketing da Dargaud, e Céline Bagot, produtora que possui experiência no próprio Festival de Angoulême, como funcionária da 9e Art+ entre 2016 e 2019, na área da comunicação. Bagot também é uma das fundadoras do Pop Women Festival, evento focado na valorização da criação artística feminina e na promoção da igualdade de gênero nas artes e na cultura.
De acordo com nota lançada pela ADBDA, quando o resultado foi revelado, a proposta da Morgane Groupe foi selecionada por atender “às expectativas de todo o setor em termos de exigência artística, diversidade estética dos quadrinhos, organização de premiações, alcance internacional e oferta de educação artística e cultural inclusiva para todos os públicos”. O texto destaca que a nova empresa dará atenção especial ao “papel central dos autores, à representação de todas as suas profissões e ao apoio profissional a jovens talentos”, uma das principais demandas que levaram à crise do festival em 2025.
Desde a escolha do grupo Morgane, foi criada uma estrutura específica para o novo evento: a M:BD. Ela será apresentada em coletiva de imprensa no dia 3 de novembro, na prefeitura de Angoulême, quando também serão reveladas as primeiras prévias de conteúdo do novo evento dedicado aos quadrinhos.

Crise que levou ao cancelamento da edição 2026
Desde a última edição do festival, em janeiro de 2025, a 9e Art+ foi alvo de críticas da comunidade artística. Os principais motivos eram relacionados à gestão interna, especialmente após a demissão de uma funcionária que denunciou um caso de abuso sexual, ocorrido durante a edição de 2024, além de acusações de falta de transparência, nepotismo e mercantilização do evento. A repercussão das ameaças de boicote feitas por centenas de artistas também passou contar com o apoio de editoras como Dargaud, Dupuis, Le Lombard, Urban Comics, Casterman e Glénat.
Em 1º de dezembro, a 9e Art+ cancelou oficialmente a edição 2026, com a justificativa de que não seria possível realizar o evento de forma adequada. A alegação da empresa foi que os financiadores públicos decidiram “de forma unilateral não pagar os subsídios necessários para a realização do evento”, após cortes no financiamento.





