
Desde o dia 17 de fevereiro, a rotina de Cecília Ramos ficou diferente. Conhecida como Cartumante nas redes sociais, onde acumula mais de 200 mil seguidores, a quadrinista vive neste ano o seu primeiro Ramadã. O período corresponde ao nono mês do calendário islâmico, quando os muçulmanos ficam em jejum da aurora ao pôr do sol. O momento é de aproximação dos fiéis com Allah, palavra árabe para Deus, e de reflexão. Para isso, Cecília também usou os quadrinhos.
Nos primeiros dias do Ramadã, Cartumante lançou em suas redes sociais uma série de três tiras nas quais relata sua trajetória com o Islamismo, quebrando aquilo que chamou de “seu próprio tabu”.
No quadrinho, a autora destaca que, assim como alguns de seus leitores, ficou chocada ao se ver dentro do Islã. As tiras também retratam os desafios desse caminho e produzi-las foi, em suas palavras, catártico. “Pelos quadrinhos, eu conseguia expressar exatamente o que eu sentia em relação a esse processo”, disse ao Fora do Plástico. Seu objetivo com a publicação era mostrar que abraçar uma religião não mudaria o seu estilo de humor, e sim traria um novo fôlego para a sua produção.
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Mas, claro, a exposição veio com certas dúvidas. Cecília conta que ficou dividida entre saber que não precisa prestar contas a ninguém, e se sentir responsável por levar informação de qualidade sobre o Islã, de maneira simplificada. “Tenho consciência de que é uma religião muito estigmatizada e pouquíssimo conhecida aqui no Brasil. Acho que trazer isso através da arte trouxe legitimidade pro meu processo”, disse a quadrinista.
Mesmo com este conflito interno, a artista reforça que o feedback dos leitores está sendo muito positivo: “Até no próprio meio religioso mesmo, eu fiquei muito tocada ao ver o quanto outros muçulmanos se sentiram correspondidos e relacionados. Estou me sentindo realizada em poder trazer e criar esses conteúdos nesse formato, coisa que antes eu só via em inglês”.
O retorno não veio apenas de muçulmanos, mas também de membros de outras religiões estigmatizadas historicamente, como as de matriz africana. Ela conta que estas pessoas se identificaram com o sentimento de não terem escolhido a fé, ideia que a cartunista elaborou na série de tiras.
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Com os quadrinhos, a autora vê uma possibilidade de mostrar que há uma pluralidade de formas de se viver o Islã e humanizar seus adeptos. “É uma religião de quase 2 bilhões de pessoas e com mais de 1400 anos de idade, sabe? É loucura, além de injusto, tentar encaixar seus praticantes em um estereótipo raso”, explica Cartumante.
Durante sua trajetória, a artista conta que a arte teve um papel de validar as suas dúvidas. “Um trabalho que me tocou muito foi o da Ya Volta, uma artista queer e muçulmana que conheci na Poc Con. Na época, eu ainda estava estudando sobre a religião e vê-la me fez me sentir vista, como se eu agora tivesse alguma ‘permissão’ para existir, mesmo com as minhas dissonâncias cognitivas, que na época ainda não conseguia elaborar”, contou Cecília.
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O Ramadã se encerrou nesta quinta-feira (19), com o Eid al-Fitr, uma celebração que marca o fim deste período de conexão e fé. Em sintonia com a data, a artista recomendou leituras para conhecer mais sobre o Islamismo, como o quadrinho “Habibi”, de Craig Thompson, publicado no Brasil pela Quadrinhos na Cia, que bebe do próprio Alcorão e de clássicos como “As Mil e Uma Noites” para construir uma história sobre amor e religião. Cecília ainda cita a webcomic “Yes, I’m Hot in This”, de Huda Fahmy, que pode ser lida em inglês no Webtoon. A HQ acompanha a própria Fahmy e sua perspectiva como uma mulher muçulmana-americana.





