Nota 4.0

Tekoha

21 outubro 2026

De Clara Chotil
184 páginas
Veneta | 2026
Tradução: Leticia de Castro

Não há tradução equivalente à palavra tekoha em português, mas Clara Chotil consegue apresentar com clareza seu sentido no quadrinho que leva o nome da expressão guarani. Tekoha é uma obra, de certo modo, intimista, que percorre o fio que liga a autora franco-brasileira à terra de sua mãe, ao mesmo tempo que apresenta com objetividade parte da história do Mato Grosso do Sul.

Para traçar esse panorama, a artista percorre uma linha do tempo não linear, que mescla o presente ao passado, em especial períodos a partir dos anos 1940, com as primeiras iniciativas de colonização de um território historicamente pertencente aos indígenas Guarani Kaiowá. Enquanto o presente mostra a autora em campo, pesquisando e se aproximando do lugar onde a trama se passa, o passado revela como essa ocupação aconteceu. Em alguns momentos, mais páginas ajudariam a deixar a conexão entre os elementos da trama mais clara, mas esse é um detalhe que não chega a comprometer a leitura.

O resultado é uma narrativa que não parece querer ensinar o leitor, mas que acaba levando-o a aprender sobre a questão abordada. A luta e a resistência dos indígenas estão constantemente presentes, desde o título até capítulos inteiros que dão espaço a Jorge, pesquisador da etnia Guarani Kaiowá, que destaca a busca de seu povo por recuperar sua tekoha. Mais do que um pedaço de terra, a palavra designa o espaço onde o modo de vida desse povo pode existir, com sua identidade e todos os elementos que fazem parte dela.

Pintado em acrílico, o quadrinho usa uma ampla paleta para retratar a região em diferentes épocas. O visual é encantador e ajuda a conduzir a narrativa, dando peso e textura às paisagens, que são parte central da história.

Publicado pela Veneta, Tekoha nos ajuda a compreender o Brasil atual e as origens de demandas que seguem urgentes. Ao narrar a relação dos Guarani Kaiowá com seu território, Clara Chotil mostra que essa é uma luta na qual o direito à terra é também o direito de preservar a cultura de um povo.

Carrinho atualizado