De Xavier Dorison e Félix Delep
288 páginas
Nemo | 2026
Tradução: Renata Silveira
Assim como A Revolução dos Bichos, clássico de George Orwell, O Castelo dos Animais utiliza a fábula animal para construir uma poderosa crítica social ao autoritarismo e às desigualdades. A HQ de Xavier Dorison e Félix Delep, porém, encontra sua própria voz. Compilando os quatro volumes em um único livro, o quadrinho é tão cativante quanto necessário.
A história se passa em uma fazenda abandonada pelos humanos, onde os animais tentam sobreviver em uma comunidade aparentemente autossuficiente. Mas a harmonia está longe de existir, afinal, o touro Silvio governa em um regime ditatorial baseado no medo. Tudo começa a mudar com a chegada de Azélar, um rato viajante que com sua peça teatral espalha ideias de resistência pacífica. Inspirados por sua mensagem, a gata Miss B e o coelho César iniciam uma revolta que busca enfrentar a tirania de Silvio sem recorrer à violência.
Apesar da estratégia pacifista adotada pelos rebeldes, a HQ não evita mostrar a brutalidade do regime. Há diversas cenas impactantes que escancaram como aquele sistema é opressor e injusto. E justamente pelo contraste entre a violência do governo e a resistência dos protagonistas, a narrativa mantém um clima constante de tensão e suspense. A cada página, a sensação é de que qualquer personagem pode se tornar vítima.
Dorison constrói a narrativa com equilíbrio, desenvolvendo personagens extremamente carismáticos, antagonistas ambíguos, além de trazer humor como respiro em meio ao clima, às vezes, sombrio da HQ. Toda essa combinação mantém o leitor emocionalmente envolvido até o fim, e que fim.
Os desenhos potencializam ainda mais esse impacto. Os cenários, os enquadramentos e as expressões dos bichos são cuidadosamente pensados para ampliar o peso dramático da história. A série foi o primeiro trabalho de fôlego de Delep e é notável que há uma evolução no traço entre o primeiro volume e os seguintes.
Publicado pela Nemo, O Castelo dos Animais é uma história sobre resistência e dignidade, que usa como poucas o protagonismo animal para falar de temas humanos que nunca perdem a urgência.






