4 outubro 2022

Love & Rockets: Revolução e representação latina e feminina

Por Fora do Plástico

Love & Rockets nasceu em 1981, como uma revista auto-publicada pelos irmãos Gilbert, Jaime e Mario Hernandez. Curiosamente, ao mesmo tempo, nascia a editora Fantagraphics Books em Seattle. Gary Groth, um dos responsáveis pela editora, teve a coragem de apostar na série dos três irmãos. A L&R era o que a editora realmente precisava para decolar, assim como a Fantagraphics era o que Love & Rockets precisava. Dessa forma, a partir de 1982 e até os dias de hoje, a série é publicada pela “Fanta”.

 


Uma revolução nos quadrinhos norte-americanos 

 

 A L&R transformou a representação dos latinos, trazendo uma caracterização mais verossímil e ampla, completamente diferente da imagem estereotipada difundida nos quadrinhos mainstream naquele período. Eles eram representados como irresponsáveis e impulsivos, não civilizados e, claro, longe das figuras de protagonismo. Nascidos na Califórnia, em uma família mexicana, os Hernandez fizeram com que vários latinos se vissem nos personagens da fantástica Palomar ou nas tramas do grupo de punks “chicanos” de Locas.

Outro ponto essencial na obra dos irmãos Hernandez é a forma como o tempo afeta os personagens. Eles envelhecem junto com seus autores, ganham rugas e outras marcas da idade, ao longo da publicação. “Eu não vendo bonecos dos meus personagens, para que eles precisem ter sempre a mesma idade, como os super-heróis. Eu quero mesmo é mostrar a passagem do tempo, como acontece na vida real, com o seus filhos crescendo, tendo seus próprios filhos e por aí vai”, contou Gilbert em uma entrevista ao Fora do Plástico, em 2020.

Poder feminino

Nas histórias de L&R, as personagens femininas possuem papéis de liderança e são elas que têm o poder de influenciar o desenvolvimento da trama, característica atípica comparado com os quadrinhos norte-americanos da época. Além disso, os homens ou são “ignorados” ou aparecem em posições secundárias. As mulheres dominam Love & Rockets e se tornam íntimas de seus leitores, afinal, parecem reais. “Se as mulheres tiveram que se identificar com personagens masculinos ao longo dos anos, por que os homens não podem se identificar com uma mulher?”, conta Gilbert Hernandez  à editora Veneta. O irmão, Jaime, observa em uma entrevista ao site Remezcla, que sentia que trazer as mulheres como protagonistas em suas histórias era “a coisa certa a fazer”, afinal, todo o histórico de representação feminina, em especial nos quadrinhos, não era nada bom.

É importante destacar que, além da representatividade latina e feminina, há também diversos personagens LGBT+ em Love & Rockets em espaços de protagonismo.

 

 

Por onde começar a ler?

A Veneta publica desde 2016 a coleção “Biblioteca Love & Rockets”. Essa série reúne todas as histórias de L&R, de Jaime e Gilbert, mais ou menos cronologicamente. Até o momento, já foram publicados quatro volumes, todos de Palomar, o lado de Gilbert.

Realismo fantástico em histórias de família, violência, política e sexo. Na cidade latino-americana ficcional de Palomar, conhecemos uma realidade que questiona a latinidade expressa a partir de uma perspectiva tradicional estadunidense.

O lado de Jaime: “Locas”

Já as histórias de Jaime contém elementos de ficção científica e super-heróis, sem deixar de incorporar narrativas humanas. No Brasil, a Veneta vai publicar Maggie, a Mecânica, o primeiro volume de Locas, ainda este ano.

 

  • É importante dizer que os livros de Gilbert e Jaime podem ser lidos independentemente. Você pode começar a ler Love & Rockets a partir do “lado” da história que mais te interessa. O terceiro irmão, Mario, teve contribuição esporádica em Love & Rockets , principalmente em edições especiais de aniversário. Seu trabalho é mais relacionado à gestão da obra.

Como fica o Dia de Julio? Também é parte da Love & Rockets?

Publicado pela Nemo em 2019, O Dia de Julio é uma graphic novel de Gilbert Hernandez ambientada no universo de Love & Rockets, porém não faz parte da revista de mesmo nome e pode ser lida de forma completamente independente. Na HQ, Gilbert se propôs o desafio de contar a história de um homem comum, que nasceu em 1900 e morreu no ano 2000.

 

Love & Rockets foi considerada a melhor história fora do eixo de super-heróis, pela Rolling Stone, em 2019. Coleciona fãs ilustres, como Neil Gaiman, que já declarou ao The Guardian que não entende como “o material de Love and Rockets não é amplamente considerado como uma das melhores peças de ficção dos últimos 35 anos. Porque é”. E, talvez um de seus maiores feitos, segue em publicação 40 anos depois, mesmo que a frequência já não seja mais a mesma. Como um ponto definidor da representação latina, feminina e queer nos quadrinhos, as histórias dos Hernandez não poderiam deixar de constar entre o que há de melhor nos quadrinhos underground norte-americanos.

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