7 novembro 2022

Gibi podre: uma produção de (des)respeito

Por Fora do Plástico

Quadrinho podre é o nome que Lobo Ramírez prefere que as obras que publica sejam chamadas. Nada de “trash” ou “underground”, o nome é podre. “São obras que trazem uma mistura de escracho com conteúdo gráfico explícito e tudo que é moralmente duvidoso aos olhos da sociedade dita cristã“, explica o quadrinista, que há 6 anos criou a editora Escória Comix, uma das representantes desse gênero sem qualquer compromisso com os bons costumes.

Nas referências, é possível ver muito da estética oposta ao que é proposto pelo mainstream. Algo que o comix underground norte-americano havia proposto na década 1960, com nomes como Robert Crumb, Trina Robbins, Skip Williamson, Gilbert Shelton e S. Clay Wilson. O movimento foi também uma resposta à rigidez do Comics Code, que regulamentava os quadrinhos desde 1954. Para um quadrinho ser aprovado, os valores familiares precisavam ser enaltecidos, nada de sedução, de lascivo. Violência, só se fosse camuflada.

O comix underground seguia exatamente o oposto. Pensados para o público adulto, esses quadrinhos foram um divisor de águas na forma de pensar, distribuir e publicar as HQs. A liberdade criativa foi uma das principais premissas desse movimento criativo que desafiava a regulamentação moralista com obras satíricas e inescrupulosas.

Nos quadrinhos podres brasileiros não é diferente, embora não haja um órgão regulador. Por outro lado, há um estado de incômodo com o conservadorismo, um desejo de provocar a tudo e todos. “São publicações em sua maioria independentes, com histórias agressivas, consternadas e contestadoras. Que é o estado do brasileiro hoje: agressivo e consternado”, analisa quadrinista e ilustradora Amanda Miranda, apaixonada por horror nas mais diversas vertentes e que explora elementos grotescos em algumas de suas obras. É o caso de A Urna (editora Monstra, 2022), que usa o gore para tratar das peculiaridades da democracia brasileira, em cores vibrantes, quase radioativas. É uma podreira refinada, sem dúvidas.

A liberdade alcançadas pelos artistas que fazem quadrinho podre está muito relacionada à produção independente, Lobo Ramírez conta que, sem muita pretensão, criou a Escória para tentar divulgar as obras que gosta. “Por estarem espalhados por aí, (esses quadrinhos) eram muitas vezes ignorados, achei que criando uma editora focada nesse tipo de quadrinho ajudaria a espalhar essas obras e tirar mais pessoas do seio da família e colocar direto nas tetas do diabo. Me inspirei basicamente nos selos de hardcore/metal que lançam e distribuem material das bandas undergrounds“, conta. A Escória lança uma média de 6 quadrinhos por ano, vendidos na loja online da editora, em feiras e eventos e gibiterias. A liberdade para seus autores é considerada um pilar.

“O autor geralmente se autopublica ou publica por uma editora pequena e vende para aquele seleto grupo de pessoas fiéis que curtem esse tipo de conteúdo, que espalha as novidades boca a boca, em pequenos blogs ou canais, e que vai se disseminando aos pouquinhos”, conta o quadrinista Fábio Vermelho. Em 2015, ele começou a publicar sua revista independente Weird Comix, totalmente em inglês, vendida principalmente para países como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália. O que fez com que criasse seu pequeno público. Depois, seus trabalhos passaram a ser lançados na Escória, Veneta, Pé-de-Cabra e Ugra. Fortemente inspirado por tudo que há de sujo, bizarro depravado, ele é um dos principais expoentes do que há de melhor no gibi podreira.

É inegável que o quadrinho podre se firmou como um espaço fértil, totalmente independente, para autores que desejam criar suas obras, sem limitações criativas, e que têm o objetivo de contestar, escandalizar e romper normas, no conteúdo e na arte. Sem qualquer compromisso em ser fiel com a realidade.

“Por baixo da camada de trasheiras, escatologias, piadas e exageros, (essas HQs) podem explorar alguma crítica social ou contar uma história extremamente instigante. No final das contas, acho que um quadrinho trash sempre vai te fazer rir, mesmo que seja com alguma coisa que você não pretendia rir.

FABIO VERMELHO

 

Eu Fui Um Garoto Gorila

Fábio Vermelho (Veneta)

Fábio Vermelho explora em Eu Fui Um Garoto Gorila o que há de melhor no horror grotesco. Seguindo um jovem do interior dos Estados Unidos que se transforma em um gorila gigante assassino, o quadrinho apresenta um clima de suspense bem construído, que mescla humor com sequências de muita violência gráfica.

 


O Alpinista

Victor Bello (Escória Comix)

Landoni é o maior alpinista de todos os tempos e o único a ter chegado no topo da maior montanha do mundo, em Cordeirinho do Norte. Porém, depois de um estranho acidente, sua carreira entra em decadência e ele se torna apenas o 2º maior alpinista do mundo. Agora, Landoni partirá rumo a uma jornada cheia de ódio e sangue, onde não se pode confiar em ninguém.


Pesadelo na TV

Victor Freundt (Escória Comix)

Com uma retratação perfeitamente grotesca e escatológica de um programa sitcom, Victor Freundt faz diversas críticas a esse formato, mas principalmente ao governo vigente e ao conservadorismo reacionário. O resultado é um terror satírico gore, ao mesmo tempo absurdo e atual.


Reanimator

Juscelino Neco (Veneta)

Com uma retratação perfeitamente grotesca e escatológica de um programa sitcom, Victor Freundt faz diversas críticas a esse formato, mas principalmente ao governo vigente e ao conservadorismo reacionário. O resultado é um terror satírico gore, ao mesmo tempo absurdo e atual.

 


Aparição – Ugrito #24

Amanda Miranda (Ugra)

Embora não seja exatamente um “gibi podre”, Aparição, de Amanda Miranda, carrega elementos da estética suja do underground, ao lado de uma estética gore, para fazer um terror psicológico. A trama aborda o desaparecimento de uma dona de casa e a aparição de uma santa em uma janela.

 

 


Revista Pé-de-cabra

Vários autores (Pé-de-cabra) | 4 edições

A revista Pé-de-Cabra traz, em cada edição, trabalhos curtos de diverso artistas, desde 2018, com 4 edições ao total. A última, lançada em fevereiro deste ano, reuniu 58 trabalhos de artistas diversos sobre o tema Amor. Doença e Televisão já foram tema de edições anteriores.


Esgoto Carcerário

Emilly Bonna (Escória Comix)

Um penico cansado da vida que leva decide se aventurar em busca de uma recompensa em dinheiro, que viu num anúncio de TV, para quem encontrasse a criminosa Alzira Morcegona e as três pessoas que ela sequestrou e mantém em cativeiro no esgoto.


Crono Xiririca

Victor Bello e Rodrigo Okuyama (Pé-de-Cabra)

Crono Xiririca é um relato de como cinco pessoas tentaram usar tudo que tinham em suas mãos para impedir que Jair Bolsonaro se tornasse presidente em 2018. Eurodance, praia, amizade, ciência se misturam nesse “thriller verídico” de um dos episódios mais esquisitos da história brasileira.

 

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