
A censura a quadrinhos em escolas e bibliotecas está crescendo nos Estados Unidos. O alerta foi feito em uma mesa sobre o tema, durante a conferência WonderCon 2026, realizada na Califórnia, entre os dias 27 e 29 de março.
O painel contou com o advogado e diretor do Comic Book Legal Defense Fund (Fundo de Defesa Legal dos Quadrinhos, em tradução livre), Jeff Trexler, que destacou a gravidade do cenário com dados referentes ao ano de 2025. “Os direitos estão sendo atacados e já não podemos contar com os tribunais”, disse Trexler.
No ano letivo de 2024-2025, 601 quadrinhos foram alvo de censura em escolas e bibliotecas nos Estados Unidos. O número representa cerca de 9% do total de 6.719 livros proibidos ou restringidos, segundo dados da organização literária PEN America. Percentual que indica um aumento em relação ao ano anterior, quando os quadrinhos correspondiam a 6% dos títulos censurados.

Entre os títulos banidos nos últimos anos estão, “Maus”, “Batman: A Piada Mortal”, “Bone”, “Fun Home”, “Dragon Ball”, “Watchmen”, “Gênero Queer” e “Retalhos”. Já os estados que estatisticamente mais censuraram livros entre 2024 e 2025 são Flórida, Texas e Tennessee.
Jeff Trexler chamou atenção para uma decisão recente da 5th Circuit Court of Appeals, que abrange estados como Texas, Mississippi e Louisiana, segundo a qual bibliotecas não estariam protegidas pela Primeira Emenda, dispositivo da Constituição dos Estados Unidos que garante a liberdade de expressão. Segundo o advogado, esse entendimento pode ampliar ainda mais o espaço para censura em instituições públicas.

Novos desafios à frente
O painel também abordou a crescente criação de leis que definem conteúdos como “prejudiciais a menores”, termo jurídico usado nos EUA para definir materiais considerados inapropriados ou nocivos para crianças e adolescentes. “Há uma série de projetos de lei e algumas leis pelo país que estão mudando a definição do que a Suprema Corte chama de ‘prejudicial a menores’, o que passa a ser interpretado como algo ligado à luxúria ou que seja claramente ofensivo aos padrões da comunidade”, observa Trexler.
Embora os padrões tradicionais exijam que uma obra seja avaliada como um todo, o diretor do Comic Book Legal Defense Fund destacou que novos esforços em nível estadual buscam “eliminar o valor literário, artístico, político e científico a partir de uma única imagem, em vez do livro completo”. Um único quadro de uma HQ, fora de contexto, pode ser usado para retirar essas proteções.

Ainda no âmbito legislativo, há mais um motivo de preocupação para Trexler e os demais integrantes do debate, que contou com outros profissionais que atuam na linha de frente do meio: a quadrinista Amy Chu, o advogado especializado em entretenimento Britton Payne e a bibliotecária, educadora e autora Moni Barrette.
Caso seja aprovado o Projeto de Lei H.R. 7661, apresentado ao Congresso em fevereiro, a chamada “Lei de Combate à Sexualização de Crianças” pode proibir o uso de verbas federais em escolas para qualquer material considerado “sexual”, o que pode levar à retirada de livros e conteúdos educacionais, incluindo obras com temas LGBTQIAPN+. “Não se trata mais apenas de mudar um livro de seção”, alertou Moni Barrette. “Trata-se da completa eliminação dessas diversas vozes.”
Em março, o Comitê de Educação e Força de Trabalho da Câmara dos Deputados dos EUA avançou com o Projeto de Lei. Após a análise, o presidente da comissão, o congressista Tim Walberg, de Michigan, escreveu que a proposta “representa um sólido pacote de reformas sensatas para proteger os estudantes, os contribuintes e a integridade de nossas instituições”. O texto segue na fase de tramitação dentro do Congresso e precisa ainda ser colocado na pauta para votação antes de avançar na legislação federal norte-americana.





