
Alan Moore é, há décadas, um crítico da indústria de quadrinhos. O roteirista de “Watchmen”, “V de Vingança” e “Do Inferno” voltou a falar sobre o assunto em uma entrevista recente ao portal Retrofuturista. Moore analisou que, embora os quadrinhos sejam “uma forma de arte surpreendente, cujo potencial ainda está longe de ser explorado”, a indústria fez com que perdessem uma de suas características primordiais: a acessibilidade.
“O que me atraiu para os quadrinhos, inicialmente, foi exatamente o fato de serem ignorados pela cultura e considerados um meio de segunda categoria, adequado apenas para crianças ou para a classe trabalhadora”, observa Moore. Foi justamente essa marginalidade, nas palavras do escritor, que trouxe aos quadrinhos a possibilidade de transmitir ideias poderosas.
“Nas mãos certas, os quadrinhos poderiam se tornar um campo onde ideias úteis, poderosas e potencialmente libertadoras, apresentadas de forma atraente e envolvente, poderiam ser transmitidas a jovens e pessoas pobres em toda a sociedade, de maneira rápida e cativante. A quem mais precisam dessas ideias”, reflete.

No entanto, essa perspectiva foi corroída com o tempo e com as mudanças na indústria. Moore considera que as HQs se tornaram inacessíveis para crianças e pessoas de baixa renda. “Parece ser, mesmo em seus exemplos mais dignos, um campo que gera conteúdo principalmente por, para e sobre pessoas de classe média”, analisa.
Ele esclarece que não tem nada contra esse público, mas pondera que a produção atual não tem relação com as origens da linguagem. As histórias em quadrinhos foram “concebidas por, para e sobre a classe trabalhadora, que era seu público e, na minha opinião, seus melhores criadores”.
“Esse é o quadrinho que eu gostaria de ver, cheio de ideias novas e acessível a todos, mas, sendo realista, não acho que isso vá acontecer, então decidi direcionar minhas energias restantes para outro lugar”, conclui o escritor.

Na entrevista, Alan Moore reafirmou os motivos que o fizeram renegar suas obras publicadas pela DC. “Receio que minhas experiências pessoais na indústria dos quadrinhos, durante uma carreira não particularmente agradável, tenham me levado a renegar todas as obras que não possuo – cerca de 95% delas – e a não desejar mais estar associado aos quadrinhos”, comentou Moore. “Não tenho exemplares desses livros em casa, não quero discuti-los, autografá-los, vê-los ou, se possível, sequer pensar neles ou nesse campo tão explorado e brutalizado”, conclui.
O escritor volta a falar sobre quadrinhos ao responder uma pergunta sobre suas crenças do passado, que soam hilariantes ou erradas atualmente. “Provavelmente, minha crença de que talvez eu pudesse mudar o campo dos quadrinhos para melhor, ou pelo menos torná-lo um lugar onde eu suportasse trabalhar, algo que agora considero comicamente ingênuo e um tanto deprimente, embora não é o que eu chamaria de trágico”.





