De Lelis
104 páginas
Figura | 2025
Em Reparações, Marcelo Lelis retorna a uma de suas obras mais delicadas: Anuí. A história de uma caixinha de música que perdeu o som ganha novos contornos e ainda mais contexto em seu novo quadrinho. Com uma narração que lembra tanto a prosa quanto os causos, o quadrinista mineiro nos transporta para uma cidadezinha do interior, com seus personagens peculiares, assim como para um tempo e suas mazelas.
Um murmúrio toma conta da vizinhança, depois da cidade. É Alice que chora por sua caixinha de música, um presente de seu falecido avô, que agora parece permanentemente fechada. A missão de consertá-la é entregue ao velho Jurandir, um homem carrancudo, mas engenhoso. Em paralelo, Lelis leva o leitor a conhecer não só a história por trás desse objeto tão precioso, como também do próprio avô de Alice. É assim que a trama atravessa as fronteiras de Minas e caminha rumo ao nordeste para retratar a migração forçada de famílias que fugiam da seca e da fome.
Se Anuí percorria mais as camadas simbólicas dessa história, Reparações amplia seu alcance com um subtexto mais rico, em que as questões sociais são incorporadas à trama, ainda que de forma breve. O quadrinho faz referência à histórica seca de 1932 e aos verdadeiros campos de concentração no Ceará, onde retirantes ficavam confinados sob o argumento de que lá estariam protegidos.
Ao mesmo tempo em que Lelis percorre esse passado árduo e ainda pouco conhecido, há espaço para a beleza, no texto e na arte. O título da HQ é amplo em sentidos, afinal, esta é uma obra que abre caminho para a esperança e para os recomeços. No visual, o quadrinista cria cenas impactantes em seu estilo aquarelado, delineando da arquitetura colonial às imagens áridas do sertão.
Publicado pela Figura, Reparações é visualmente deslumbrante, como tudo o que Lelis produz. Há muita identidade em suas obras, tanto na escolha das temáticas quanto na apuração visual. Sem dúvida, um dos grandes quadrinistas brasileiros.








