[Especial]

Orelha Editora estreia com “Coda” e modelo que promete HQs mais baratas

Editora revela como pretende reduzir custos para lançar edições a preços mais acessíveis.

13 agosto 2026
Por Fora do Plástico


Com cerca de 50% da meta atingida em menos de 24 horas de sua primeira pré-venda, a Orelha Editora se apresentou ao mercado com uma proposta popular, lançar “quadrinhos mais baratos, que cheguem às mãos de mais pessoas”, nas palavras de seu cofundador e editor, Rômulo Leão. A editora revelou seus primeiros títulos na noite de terça-feira (11), em uma live no canal Batatinha Comics. Entre eles, “Coda”, de Simon Spurrier e Matías Bergara. O título marca a estreia da casa editorial, prevista para novembro.

A obra é ambientada em um mundo devastado por uma catástrofe, onde quase toda magia foi extinta. Hum, um ex-bardo antissocial, busca salvar a alma de sua esposa, tendo como única proteção sua astúcia e um unicórnio mutante de temperamento difícil. Arrastado contra sua vontade para uma disputa pelo poder para definir quem irá governar o território em que habitam, o bardo precisará lidar com as dificuldades em sua jornada e encarar seu objetivo.

“Coda está dentro de um grupo de grandes obras que, inexplicavelmente, nunca tiveram uma chance no Brasil – junto com ‘Head Lopper’, ‘Luther Strode’, ‘Birdking’, ‘Stray Bullets’ (já publicado, mas nunca finalizado) e ‘Concreto’”, explica Rômulo sobre a escolha da obra de estreia. “Dentro desse grupo, era a obra que conseguiríamos publicar num formato mais acessível neste momento, por ter apenas 3 encadernados, contra 4, 5 ou até 10 dos outros títulos citados”, completa.

Capa provisória de “Coda” | Divulgação: Orelha Editora.

Originalmente lançado pela BOOM! Studios, entre 2018 e 2019, o quadrinho chega ao Brasil em uma edição em volume único de 320 páginas. O quadrinho terá capa cartonada com orelhas, ao preço de R$89,90, considerado abaixo do padrão do mercado para obras com as mesmas configurações. “Para reduzir o preço do quadrinho, adotamos duas estratégias: tiramos a Amazon (e os distribuidores) da jogada, focando na venda direta, e esticamos a corda do nosso ponto de equilíbrio”, conta o editor.

Criador do veículo Além dos Quadrinhos, Rômulo revelou que decidiu fundar a editora, ao lado de sua esposa e sócia, Maria Clara Cortez, enquanto pesquisava sobre a Lei do Preço Fixo. “Estudando a lei – que sempre defendi – para produzir conteúdo a respeito, percebi que era possível fazer quadrinho barato no Brasil se lançássemos títulos pensados para quem lê, e não para que uma multinacional use o produto como isca para atrair novos assinantes”, afirma.

Rômulo e Maria Clara são engenheiros de produção e usaram a experiência prévia na área para repensar a estrutura de custos tradicional do mercado editorial. “Ao vender para a Amazon ou para um distribuidor, é preciso conceder [ao varejista] um desconto que varia entre 50% e 65% sobre o preço de capa”, explica Rômulo. Focando na venda direta, o custo cai para 4,29%, da taxa do sistema de pagamento, ou 13%, no caso da taxa do Catarse. “Essa redução é repassada ao leitor e também usada para subsidiar o frete”, conta.

A aposta na cauda longa é outro pilar citado pelos responsáveis pela Orelha. “Ganhamos menos por reduzirmos preço e margem, mas vendemos mais justamente por sermos mais baratos”, revela o editor sobre a proposta. “Nossa tiragem se paga a partir de 50% de vendas. Na prática de mercado, esse percentual costuma ficar entre 25% e 30%, ou seja, o custo dos 70% restantes precisa ser coberto pelos 30% vendidos. Com preço menor, frete subsidiado e a qualidade e o apelo dos nossos títulos, apostamos que conseguiríamos vender uma boa quantidade já nas pré-vendas, sem onerar o leitor com esse custo de ‘encalhe’”, conclui.

Compromisso no nome

O nome da editora faz alusão a outro atributo que faz parte de sua identidade, a de publicações com acabamento em capa cartão com orelhas. “Brinco que assinei um contrato com um amigo prometendo nunca publicar capa dura, sob pena de multa. Mas, brincadeiras à parte, acreditamos que, se o título está chegando pela primeira vez ao Brasil, o formato precisa ser o mais acessível possível.”

Rômulo deixa espaço para outras possibilidades, no futuro, com uma condicionante. “Se ‘Coda’ esgotar, por exemplo, e houver demanda por uma edição definitiva e mais luxuosa, podemos repensar”, observa. “Mas nossa diretriz principal é sempre começar com capa cartão e orelha – não como um elemento de luxo, mas como algo que ajuda a preservar a capa do quadrinho“, define o editor.

Planos futuros

Além de “Coda”, foram anunciados “Man’s Best”, de Pornsak Pichetshote e Jesse Lonergan, “Grafity’s Wall”, de Ram V e Anand RK,  e “Out of Alcatraz”, de Chris Cantwell e Tyler Crook, todos previstos para 2027. A curadoria, focada em quadrinhos norte-americanos autorais, é orientada por gosto pessoal, de acordo com o editor. Escolher títulos do mercado estadunidense é também uma estratégia. “Tanto porque entendemos que é um mercado que não é plenamente atendido hoje e não tem tanto espaço nas editoras quanto mangás e BDs, mas também pensando numa padronização de estoque, embalagens de envio e custos de frete”, revela.

“Nosso interesse é ter o prazer de apresentar novos autores, ou pelo menos trabalhos autorais de nomes já conhecidos”, acrescenta Rômulo. “Há ainda outro ponto: não queremos disputar licenças com outras editoras, para não encarecer o produto e para dar espaço a outros títulos também chegarem ao Brasil”, completa.

Outros três títulos anunciados pela Orelha Editora.

Para o próximo ano, o plano da Orelha Editora é manter uma periodicidade trimestral de lançamentos, totalizando quatro obras por ano. Apesar do uso do Catarse para a primeira pré-venda, o projeto é que as próximas HQs sejam vendidas diretamente no site da editora, previsto para ir ao ar em breve, como mais uma medida de redução de custos.

Segundo Rômulo, a próxima pré-venda deve ser a de “Grafity’s Wall”, em dezembro, iniciada com alguma ação ao lado de Ram V na CCXP26, por sugestão do próprio roteirista. “Ainda precisamos definir a ordem entre ‘Man’s Best’ e ‘Out of Alcatraz’, já que fechamos recentemente mais um título muito aguardado, de uma dupla de autores, com trabalho autoral inédito. Ainda resta espaço para mais 1 ou 2 lançamentos em 2027, cujos direitos seguem em negociação”, adianta.

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