Nota 4.5

Naftalina

9 fevereiro 2026

De Sole Otero
336 páginas
WMF Martins Fontes | 2026
Tradução: Mariana Waquil

Dramas familiares podem ser um tanto previsíveis. Ainda que seja um gênero que adoramos, o risco da mesmice está sempre presente. Sole Otero flerta com essa possibilidade em Naftalina, sua obra de estreia no Brasil. Ao acompanhar uma neta que reconstrói a história da avó, enquanto revisita a relação entre as duas, a quadrinista não foge exatamente do convencional, mas executa essa proposta com brilhantismo.

O quadrinho costura duas linhas temporais, a de Rocío, na Argentina do início dos anos 2000, e a de sua avó, Vilma, desde os anos 1920. Após a morte da matriarca, a adolescente passa a viver na casa deixada por ela, um local em que cada cômodo evoca uma lembrança. Atormentada por uma infestação de pulgas do gato com quem divide o espaço, Rocío passa a sentir também a presença daquela mulher implicante, de difícil trato, que está muito longe da imagem afável da avó carinhosa.

Com ótimo ritmo e um visual que nos conduz com fluidez pelos quadros, Naftalina é um encontro entre avó e neta repleto de personagens imperfeitos. Essa característica é fundamental para essa ser uma trama familiar forte e realista. Ao percorrer sua trajetória compreendemos os motivos para a amargura de Vilma e vemos ecos de seu comportamento nas gerações seguintes e anteriores. Uma avó nada amável é um objeto bastante interessante de análise.

O uso das cores e de composições de página criativas marcam a HQ. A quadrinista nos encanta com as texturas de seus grafismos, com o uso das repetições dos personagens na mesma página e principalmente com o estilo autêntico de seu traço.

Publicado no Brasil pela WMF Martins Fontes, Naftalina é uma leitura deliciosa, tanto pelo roteiro quanto pela arte vibrante de Sole Otero. A conclusão emociona sem cair no melodrama e se mantém fiel a toda a dinâmica construída nas mais de 300 páginas. Um quadrinho que nos lembra por que adoramos dramas familiares.

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