[Especial]

Descontos nas pré-vendas desequilibraram o ecossistema do mercado de quadrinhos, apontam lojistas

Lojas de quadrinhos relatam dificuldades e criticam prática de descontos excessivos em lançamentos

11 novembro 2025
Por Fora do Plástico
Loja Monstra | Divulgação

As pré-vendas de quadrinhos com desconto, prática que havia se tornado comum nas lojas de quadrinhos brasileiras, têm sido cada vez menos frequentes. O movimento, que antes ajudava a atrair clientes e girar o estoque, agora é visto por lojistas como insustentável. Por alguns anos, lojas como Comic Boom, Monstra e Comix ofereciam títulos em venda antecipada com descontos de até 30%, prática semelhante à da gigante norte-americana Amazon. Hoje, apenas a Mundos Infinitos mantém o modelo, ainda que com porcentagens variáveis.

“As pré-vendas movimentam um bom dinheiro, porém sem, ou quase sem lucro. Visto as condições oferecidas as lojas e a margem praticada nas mesmas, deve-se tirar dessa conta não somente o preço da mercadoria, mas também todos os custos operacionais envolvidos“, explica Fabio Garcia, dono da loja Comic Boom, localizada em São Paulo.

O mesmo cálculo foi feito por Guilherme Lorandi, da Loja Monstra, outra loja de quadrinhos da capital paulista. “Não posso falar por outros revendedores, mas pra gente, a média de desconto das editoras para aquisição dos lojistas é de 40%. Então se todo produto que vendêssemos seguisse essa lógica, teríamos 10% de lucro pra manter toda a operação”, revela. O que os lojistas chamam de operação são todos os custos que envolvem o negócio, de aluguel a funcionários, além de insumos para pacotes e manutenção.

A Mundos Infinitos que segue oferecendo descontos em pré-vendas, justifica a estratégia como “um investimento no relacionamento com o cliente”, como analisa Rene Pacheco, um dos responsáveis pela loja. No entanto, ele destaca que apenas os quadrinhos muito aguardados possuem boa performance nas vendas antecipadas.

Fachada da Comic Boom! | Divulgação

Editoras e a concorrência direta

Além dos altos custos, outro ponto levantado pelos lojistas, que foi um fator para a decisão de interromper as pré-vendas com desconto, é a concorrência de algumas editoras, que passaram a vender diretamente ao público em seus sites. “O problema é que cada dia que passa, as próprias editoras que nos abastecem, estão repassando os materiais diretamente ao público, encolhendo o mercado e concorrendo com os próprios parceiros“, argumenta Fabio Garcia.

O problema, segundo algumas editoras, se originou nas mudanças que o mercado editorial sofreu desde a entrada da Amazon, e sua política agressiva de descontos, em 2015. Paulo Roberto, gerente editorial da Devir, analisa que o desequilíbrio começou quando “a primeira editora achou que seria uma boa ideia oferecer um desconto maior para um varejista do que para um distribuidor”.

A Devir, que durante anos atuou também como distribuidora de quadrinhos da Panini e de outras editoras, viu um negócio milionário praticamente desaparecer em decorrência das mudanças na cadeia de vendas provocadas pela gigante norte-americana. O gerente editorial destaca que o modelo que sustentava o mercado foi completamente transformado. “A Amazon criou o hábito de o leitor esperar sempre por um desconto maior. Isso inviabilizou as pré-vendas e está inviabilizando as lojas especializadas especificamente”, afirma.

Paulo Roberto ainda sinaliza o modelo de negócios da Amazon, que no exterior já foi alvo de acusações por práticas consideradas predatórias, como descontos abaixo do custo e pressão sobre editoras e livrarias independentes. “A Amazon não é um player qualquer, é um player que veio para o Brasil para conseguir um market share e não precisava ganhar dinheiro“, explica.

Market share é a participação de mercado que uma empresa detém em relação ao total do setor em que atua. Na pesquisa Panorama do Consumo de Livros 2024, divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a Amazon concentrou 61,7% das menções na categoria “Em qual site de livraria, app ou site você fez sua última compra de livros impressos?”, um indicativo de sua dominância no varejo online de livros no país.

O que uma editora define é o preço de capa do livro, o preço sugerido daquele livro ali. Não sou eu quem controlo o desconto que o varejista vai dar lá na ponta. Ele vai fazer esse desconto de acordo com o desconto que ele recebeu da editora, do mercado dele, dos gastos dele, dos custos dele, e aí que você tem o grande desequilíbrio de uma gigante do varejo ali competindo com lojas especializadas. Isso é que vai causar a ruptura desse modelo ali. Então, acho que esse é o principal problema que a gente tem hoje.

Paulo Roberto, Gerente Editorial da Devir 

Brasil tem menos de 3 mil livrarias | Divulgação: JBC


Descontos como regra e o impacto nas vendas

A interrupção das pré-vendas com desconto reduziu o movimento das comic shops, mas a queda nas vendas já vinha de antes, contam os lojistas. Guilherme Lorandi, da Monstra, relata que as vendas haviam caído 50%. Já Fabio Garcia, da Comic Boom, relembra que primeiro reduziu o desconto nas pré-vendas de 30% para 20%, o resultado foi uma queda de 70% nas vendas.

Para Rogério de Campos, da Veneta, o problema é mais amplo. “Não sei de outro país onde exista essa política sistemática de desconto nos lançamentos. Editores e agentes estrangeiros costumam ficar espantados quando falamos que no Brasil isso é normal. Até porque, em teoria, essa primeira edição dos livros precisa pagar os custos iniciais de produção de um livro“, conta.

Sem políticas públicas e iniciativas de fortalecimento das livrarias, o editor observa que a solução tem sido apenas baratear ainda mais os produtos. “As livrarias são talvez a maior força de divulgação dos livros, depois das escolas e bibliotecas. E não há qualquer política pública voltada para elas. Existe apenas uma receita: vendam os livros ainda mais baratos. Se antigamente um desconto de 10% já bastava, hoje se quer 50%. Onde isso pode parar?”

A Veneta já não oferece descontos em pré-vendas na Amazon. Rogério de Campos explica que, atualmente, o desconto é dado apenas por uma semana no site da editora, após a abertura da pré-venda, como forma de agradecer quem compra com antecedência.

Loja de quadrinhos Reboot Comic Store, no Ceará | Divulgação

Assim como a Veneta, a Devir também interrompeu os descontos em vendas antecipadas na varejista. O gerente editorial Paulo Roberto acredita que essa pode ser a primeira medida para uma mudança futura. “Aparentemente, a Amazon vai precisar começar a ganhar dinheiro agora com o negócio de livros dela. Então significa que esses descontos, se as editoras se mantiverem firmes, vão deixar de existir ou vão ser dentro do razoável. Ainda assim do razoável da gigante, né?”, reflete.

Apesar das dificuldades, há sinais de mobilização. Iniciativas como o Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo, que reúne 37 espaços independentes da capital, buscam dar visibilidade e fomentar o turismo literário. Ainda assim, os números preocupam. Segundo dados de 2024, o Brasil tem menos de 3 mil livrarias físicas, um cenário que tende a piorar sem medidas de fomento.

“A lógica é a de um ecossistema. A barriga não compete com o coração. Mas quando cresce demais, o coração não aguenta. É hora de mudar a dieta desse mercado, fazer uma academia e, principalmente, uma boa terapia pra entender que todos nós dependemos uns dos outros”, reflete Guilherme Lorandi.

Habilite o JavaScript para ver o conteúdo incorporado do YouTube. Abrir no YouTube.

Carrinho atualizado