De Aroha Travé
224 páginas
Veneta | 2026
Tradução: Marcelo Barbão
Carne de Canhão é daquelas surpresas maravilhosas, que garantem uma leitura com efeito completamente inesperado. A espanhola Aroha Travé cria um cenário divertidíssimo, ainda que ácido, em que a infância é espaço de inocência em meio à decadência. Ambientadas em um bairro periférico de uma cidade industrial, onde as crianças são muito pouco supervisionadas, as aventuras desvairadas da pequena Yanira e de seu irmão Kilian são contadas em um traço underground fabuloso.
Quando o Kilian bate a cabeça na quina da mesa, no meio de uma brincadeira, sua irmã precisa recorrer aos vizinhos metaleiros do prédio para levá-lo ao hospital. Essa é a primeira de quatro histórias mergulhadas em um humor ora nonsense ora corrosivo, protagonizadas pelas crianças, junto de sua mãe e dos outros moradores do bairro.
O grande destaque de Carne de Canhão está na forma sagaz como Aroha Travé mistura seu tom cômico e descompromissado a temas dramáticos, como abandono parental, bullying, dependência química, desigualdade social e maus-tratos infantis. O resultado é um quadrinho que consegue extrair do humor a denúncia social, com equilíbrio notável.
Com um visual que passa pelo grotesco e pelo caricatural, a HQ é integralmente composta de dois quadros por página. O que poderia ser um empecilho para a fluidez da obra, funciona muito bem aqui, graças ao poder de síntese da autora. Rica em detalhes, a arte é muito expressiva e capaz de arrancar risadas por si só.
Publicado pela Veneta, Carne de Canhão mostra toda a singularidade do trabalho de Aroha Travé, até então desconhecido no Brasil. Uma ótima pedida para os fãs de quadrinhos underground, mas que não se limita ao gênero. Ao lado desses pequenos protagonistas, é difícil não se sentir convidado.








