De Fumiyo Kouno
128 páginas
Taverna do Rei | 2026
Tradução: Karen Kazumi Hayashida
Fumiyo Kouno aborda, com respeito, um trauma intergeracional em A Cidade da Calmaria e a Terra das Cerejeiras. A explosão nuclear em Hiroshima é o tema central das duas histórias reunidas no mangá, mas em momentos distintos: a primeira é ambientada dez anos após a bomba e a segunda mais de 50 anos depois. Esse distanciamento temporal funciona como uma maneira de retratar a memória desse evento devastador na vida dos sobreviventes e das gerações seguintes.
A Cidade da Calmaria é uma história curta, em que o leitor não precisa de muito contexto para se afeiçoar aos personagens e compreender sua realidade. A trama acompanha uma jovem que perdeu parte da família na explosão e que ainda carrega, uma década depois, o peso de ter sobrevivido. Fumiyo Kouno elabora um conto sensível sobre as sequelas psicológicas e físicas da bomba, com uma abordagem que nos emociona de imediato.
Já A Terra das Cerejeiras pode parecer distante, à primeira vista, afinal se passa meio século após o ataque promovido pelos Estados Unidos. Aqui, a autora foca na relação dos moradores com a cidade de Hiroshima e os efeitos contínuos do trauma, mesmo para quem não viveu diretamente o evento.
O cuidado de Kouno com essas duas narrativas merece destaque. É notável a preocupação da autora com o tom das duas tramas, concentrando-se na sutileza da abordagem. Apesar de mais curta, A Cidade da Calmaria nos pareceu mais potente, enquanto A Terra das Cerejeiras se dilui entre vários personagens, ainda que tenha uma tentativa de se conectar com o primeiro conto.
A arte é delicada, com traços finos, que combinam com toda a proposta. No entanto, não podemos deixar de destacar que as feições dos personagens são bastante semelhantes, o que pode confundir o leitor, especialmente na segunda história.
Republicado pela Taverna do Rei, após ter passado pelo catálogo da JBC, A Cidade da Calmaria e a Terra das Cerejeiras não trata a memória de forma explícita. Ao fim da leitura, é possível notar como, mesmo com o passar dos anos, algumas cicatrizes nunca se fecham. Ou melhor, não podem ser fechadas pelo esquecimento.








