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Mjadra

De Thiago Ossostortos
144 páginas
Independente | 2019

Thiago Ossostortos nos surpreendeu, em 2018, com o ótimo Os Últimos Dias do Xerife, que venceu um troféu HQMix. Com seu último lançamento, Mjadra, o artista continuou fazendo um trabalho interessante e, dessa vez, com uma vibe mais experimental. O quadrinho acompanha Derick, um ex-VJ MYTV (uma referência clara à MTV) que, após o fim de seu casamento, decide recomeçar sua vida retornado ao local onde passou seus primeiros anos em São Paulo. Um quartinho alugado próximo ao MASP, esse é o espaço que traz memórias diversas à protagonista que se vê em uma crise de meia idade.

A história fica completa com a presença de mais dois personagens cruciais para a trama. Azani, um homem peculiar que é o senhorio do imóvel onde Derick vive e Enzo, um jovem YouTuber que também é inquilino por lá. É a partir das vivências, lembranças e da relação entre os personagens da trama que a trama se desenvolve. Em Enzo, o protagonista relembra sua juventude (agora distante) e também um conflito geracional gritante. Já Azani traz ao ex-VJ um saudosismo e algumas mágoas e medos do passado.

Tanto as reflexões sobre a diferença da geração que cresceu nos anos 80 e 90 e os millenials de hoje em dia quanto o delírio obsessivo de Derick são pontos cruciais da história. O roteiro é bem redondo, mas conta com algumas passagens que nos pareceram um pouco apressadas e também coincidências fáceis que simplificaram o desfecho.

Na arte Thiago Ossostortos ousa ao trabalhar com guache e cores vibrantes, potencializando a sensação psicodélica da HQ. Mjadra também tem alguns tons autobiográficos, assim como Os Últimos Dias do Xerife, o que nos surpreendeu bastante. Talvez seja por isso que ambos os trabalhos do autor sejam tão identitários, marcas registradas de sua produção.

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Roses N’ Guns

De Gabriel Arrais e Thiago Ossostortos
100 páginas
Independente | 2022

Roses N’ Guns é uma viagem alucinante, em que cada virada de página pode te reservar uma surpresa. Gabriel Arrais e Thiago Ossostortos criam uma trama que convence o leitor a embarcar no seus absurdos. E convencidos, não queremos mais parar de ler.

O ano é 1999. Rodrigo acaba de se formar na escola de cadetes da polícia militar. Ele recebe de presente dos amigos de batalhão de seu falecido pai uma arma fria, usada nos assassinatos do grupo de extermínio do qual seu pai fazia parte. Porém, no mesmo dia, Rodrigo já perde a arma, que vai parar nas mãos da travesti Rosa. Em paralelo a isso, três amigos planejam fazer um assalto a uma locadora, por motivos financeiros e pessoais. Essa é apenas a ponta dessa espiral de acontecimentos que se encadeiam.

Apesar de muitos personagens e duas linhas temporais (uma apenas focada na vida e morte de Theodoro), Roses N’ Guns jamais se perde. As histórias vão sendo costuradas com um humor escrachado, que se adequa bem aos próprios ambientes retratados. Inclusive, a ambientação é um dos pontos altos aqui. Os personagens têm voz, origem, trejeitos, características únicas, por isso é tão fácil embarcar nessa viagem. Eles parecem gente de verdade, por mais absurdas que as situações em que estão envolvidos pareçam. Vale lembrar que essa é uma história voltada para o público adulto, ou seja, não nos poupa nada.

 

Uma trama muito urbana, protagonizada por figuras que são antagônicas, no enredo e socialmente. É que, apesar de ser um quadrinho que provoca o leitor pelo humor, ele faz críticas ácidas aos modelos de poder vigente.

Na arte, Thiago Ossostortos alterna entre dois estilos para diferenciar as duas linhas temporais. Dinâmicos, seus traços focam muito nas expressões e, por mais que não seja perceptível em um primeiro momento, ele foca também nos detalhes, para caracterizar os personagens.

Roses N’ Guns é uma história muito bem contada, do começo ao fim. Além de trazer um retrato social, esse é um quadrinho que transforma essas estruturas de poder, enquanto nos deixa com um sorriso no rosto, pensando na maluquice que acabamos de ler.

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Dois Mil e Um Chopes

De Thiago Ossostortos
100 páginas
Independente | 2021

Dois Mil e Um Chopes, de Thiago Ossostortos, é um nostálgico retorno ao início dos anos 2000 a partir das memórias do autor. Ossostortos já havia apresentado seu talento para os relatos autobiográficos em Os Últimos Dias do Xerife e, de uma forma menos factual, em Mjadra. Novamente o quadrinista consegue envolver o leitor em suas experiências, com um roteiro bem ritmado.

Na trama, Thiago acaba de se mudar com a família para São José do Rio Preto. No auge da adolescência, aos 16 anos, ele sonha em um dia ser desenhista dos quadrinhos de super-heróis que coleciona. Ao lado dos anseios típicos da juventude, a HQ explora também a experiência do jovem trabalhando como garçom em uma choperia.

Para além de uma trama que nos deixou curiosos para saber o que viria a seguir, o quadrinho resgata elementos próprios do período retratado: as videolocadoras; as bandas que o autor ouvia quando jovem; as capas dos gibis; a vida pré-redes sociais. E, como dissemos, é difícil não sentir essa nostalgia. Dois Mil e Um Chopes ainda aborda as relações de amizade e como elas evoluem com a passagem do tempo.

A arte de Ossostortos é diferente da de seus dois quadrinhos anteriores. Agora o estilo do artista parece quase uma mescla entre o traço de Os Últimos Dias do Xerife e as cores alegres de Mjadra. O resultado é visualmente bem bonito!

Dois Mil e Um Chopes é uma leitura agradável e que pode ser ainda mais especial para os contemporâneos de Ossostortos, que viveram aquele mesmo período durante a adolescência e o início da fase adulta. Sem dúvidas, essa é uma celebração aos bons momentos que vivemos durante essa fase da vida. Uma leitura que dá um gostinho de saudade.

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Mamonas Assassinas: A Graphic Novel Oficial

De Thiago Ossostortos
112 páginas
Estética Torta | 2021

Mamonas Assassinas: A Graphic Novel Oficial poderia ser uma biografia do fenômeno que foram os Mamonas Assassinas. Porém, a proposta da HQ de Thiago Ossostortos, publicada pela editora Estética Torta, é outra: conectar de uma maneira divertida e criativa as letras do único álbum da banda, formando uma história em quadrinhos.

Lendários por seu sucesso estrondoso e fim trágico, o Mamonas Assassinas se firmou no imaginário de gerações. E é justamente para celebrar a memória da banda, a partir do tom amalucado de suas canções, que esta graphic novel foi pensada. A brasília amarela, o jumento Celestino, o português de Vira-vira e a “Arlinda Mulher” estão todos conectados em um roteiro que busca, acima de tudo, ser divertido, como as próprias músicas dos Mamonas. Apesar de tentar propor um nexo, um fio condutor, o quadrinho tem momentos completamente nonsense, que não irão agradar a todos os leitores, mas provavelmente foram necessários para seguir a proposta de adaptar graficamente as letras da banda.

É importante ressaltar que o humor adotado pelos Mamonas, e que era muito comum nos anos 90, não possui mais lugar no mundo de hoje. Apesar de manter, em parte, o tom das letras, Ossostortos e o time de editores buscaram trazer isso de forma mais cuidadosa, incluindo também um texto de abertura que busca contextualizar o período e explicar as escolhas editoriais.

A arte é caricata e propositalmente exagerada, além de usar muitas cores, em um estilo que remete ao pontilhismo. São feitas várias referências aos anos 90, em específico a fatos de 1994, como campanhas publicitárias na TV, notícias e detalhes do cenário.

Mamonas Assassinas: A Graphic Novel Oficial pode não ser uma história para todos. E é necessário que antes de iniciá-la o leitor esteja ciente daquilo que é a proposta da obra, ao tempo à qual ela se refere. Para os fãs ou mesmo quem sente um certo saudosismo ao ouvir a banda, essa pode ser uma divertida (e bela) homenagem.