Publicado em

Parque Chas

De Ricardo Barreiro e Eduardo Risso
152 páginas
Comix Zone | 2023
Tradução: Jana Bianchi

Parque Chas é daquelas aventuras em que não se busca explicações ou propósito. Quanto mais inusitados os acontecimentos, melhor. Totalmente ambientado no bairro de Buenos Aires que dá nome à obra, o quadrinho de Ricardo Barreiro e Eduardo Risso é surreal, crítico e divertido, principalmente por seu formato episódico.

Na trama, Ricardo encontra um apartamento com um aluguel mais que convidativo no labiríntico bairro de Parque Chas, para onde se muda rapidamente. A dona do imóvel é a bela Aitana, que o alerta imediatamente: jamais deveria abrir uma janela do imóvel. Esse é apenas o começo de uma série de acontecimentos no mínimo curiosos, que impressionam o protagonista, a ponto de fazê-lo querer ir à fundo nas loucuras de Parque Chas.

Fantasia e realidade se encontram, fazendo com que o leitor sinta o mesmo estranhamento de Ricardo, em cada uma das histórias curtas que compõem o quadrinho. Sereias, fantasmas, carros-vampiros, personalidades argentinas, personagens da literatura e dos quadrinhos, todos ao lado de um subtexto que traz paralelos com a realidade e a política do país, no período (muitas vezes tornados mais evidentes em notas de rodapé).

As histórias iniciais são todas envolventes, misteriosas, e dão uma personalidade notável a Parque Chas. Por isso, não dá para deixar de lado que a história final, publicada tempos depois, carece do brilho das anteriores, por se tornar mais expositiva. A delícia de Parque Chas é embarcar nas bizarrices, sem saber bem o porquê.

A arte de Eduardo Risso é diferente da que estamos acostumados e isso é ótimo. Seus traços estão distantes de um preto e branco absoluto, trazendo mais nuances de cinza e um realismo expressivo para toda a obra.

Lançado pela Comix Zone, Parque Chas é uma homenagem ao bairro portenho, enquanto convida o leitor a desvencilhar seus labirintos, mesmo que isso não seja possível. Que bom, afinal, o quadrinho tem seu ápice na maneira como brinca com o fantástico e com seus mistérios.

Publicado em

Cidade

De Ricardo Barreiro e Juan Giménez
192 páginas
Comix Zone | 2022
Tradução: Jana Bianchi

Uma aventura repleta de camadas ambientada em uma cidade sem os limites do nosso mundo, que parece estar viva enquanto coloca a existência dos protagonistas à prova. Cidade, de Ricardo Barreiro e Juan Giménez, é uma ficção científica completa. Logo nas primeiras páginas, vemos Jean caminhar sozinho rumo a sua casa. Até que ele percebe que desconhece a paisagem. De repente, Jean não está mais no seu bairro, ele agora é parte de um universo distinto, em um labirinto urbano gigantesco.

Assim como Jean, outras pessoas estão presas na cidade monstruosa. É o caso de Karen, uma ex-prostituta que é responsável por apresentar ao protagonista as dinâmicas daquele mundo. Ou melhor, as dinâmicas conhecidas por ela, afinal, a cidade é sempre imprevisível. E é diante dessa imprevisibilidade que o leitor se deleita, capítulo a capítulo, descobrindo ao lado de Jean e Karen as possibilidades e ameaças que os cercam.

Ao mesmo tempo que há ação, aventura, romance e ficção científica, Cidade é também uma HQ com subtextos importantes. Cada capítulo transmite mensagens sutis ao leitor, nada que soe didático. Somadas a isso estão referências à literatura, ao cinema e aos quadrinhos. São muitas homenagens e capturar algumas delas se torna parte do exercício de leitura. Há muitos facilitadores no roteiro de Barreiro, mas nada chega a parecer exagerado graças à premissa de que a cidade possui vontade própria, as regras do nosso mundo não se aplicam ali.

Parte do mérito da obra vai para a arte de Juan Giménez que é fabulosa. Destaque para o uso de planos de destaque, como um zoom in, em contraste com planos gerais que demonstram a vastidão da cidade. A narrativa gráfica também é responsável pelo clima de tensão (fundamental para nossa imersão na obra) e para o desenvolvimento das cenas de ação.

Publicado pela Comix Zone, Cidade abre espaço para uma reflexão existencial, coroada pelo ótimo capítulo final. Não podemos dar mais detalhes, mas é, sem dúvidas, uma conclusão ainda melhor do que estava sendo construído ao longo da trama. O desfecho perfeito para tornar essa obra ainda mais potente.