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As Muitas Mortes de Laila Starr

De Ram V e Filipe Andrade
128 páginas
Devir | 2023
Tradução: Marquito Maia

O nascimento de Darius, uma criança destinada a inventar a imortalidade, acarreta na demissão da deusa da Morte. Privada de sua vida de divindade, e exilada na Terra para viver como mortal, ela reencarna no corpo de uma jovem que acaba de morrer, Laila Starr. As Muitas Mortes de Laila Starr, de Ram V e Filipe Andrade, é um quadrinho fantástico sobre a nossa relação com a vida.

Ambientada em Mumbai, a trama acompanha a obcecada Laila em sua caçada para encontrar e punir a criança da profecia. No entanto, a sua jornada não é tão simples, afinal, agora ela conta com limites físicos e emoções que jamais havia experimentado. Esse é o ponto de partida para uma aventura mística e por vezes melancólica, que encara temas complexos, que vão muito além dos já mencionados substantivos vida e morte.

Sem se concentrar apenas em torno do plano da protagonista, por costurá-lo à vida de Darius, a HQ tem uma estrutura fascinante. O enredo é composto por cinco capítulos e se desenrola ao longo de vários anos, com diferentes vozes narrativas, mas sempre terminando da mesma forma: Laila Starr morre acidentalmente. Porém, ela é repetidamente ressuscitada por Prana, o deus hindu que cuida da vida.

Ram V explora sua herança cultural indiana para contar a história da Morte descobrindo o significado do que é ser humano, da mortalidade. A repetição do ciclo faz com que Laila interaja com Darius em momentos e condições diferentes e, assim, reflita sobre as conexões e reações humanas. As Muitas Mortes de Laila Starr cria expectativas para depois subvertê-las, surpreendendo o leitor com o poder de seu conteúdo.

Nos desenhos, Filipe Andrade brilha com seus personagens alongados e cenários frenéticos. A sintonia com o roteiro é impressionante e não se distingue apenas pelo traço, mas também pelas cores envolventes e vivas.

Publicado pela Devir, As Muitas Mortes de Laila Starr não procura trazer respostas ou uma lição moral. O quadrinho nos mostra, de um jeito contemplativo e filosófico, como a morte pode nos dizer muito sobre estar vivo.