Publicado em

A Coleta

De Pedro Vó
112 páginas
Conrad | 2023

A sensibilidade guia A Coleta, novo quadrinho de Pedro Vó. Ela está em cada detalhe do desenvolvimento, mas sobretudo no olhar do próprio quadrinista para seus personagens. Na HQ conhecemos Bispo, Litz e Maura, três catadores de material reciclável em São Paulo. Através de suas histórias de vida, compreendemos mais sobre a realidade desses trabalhadores e sobre a situação brasileira quando o assunto é reciclagem e sustentabilidade.

Com forte tom documental, A Coleta acompanha separadamente a rotina de cada um dos personagens. Compreendemos o trabalho com os resíduos e seus desafios, por meio dos depoimentos dos catadores. Ou seja, há um grande tema que paira sobre toda a obra, mas Bispo, Maura e Litz têm suas particularidades, suas trajetórias pessoais e nada disso é reduzido. Muito pelo contrário, Pedro Vó respeita seus trejeitos, a maneira como se expressam, seus fluxos de pensamento. Observamos tudo isso a partir da figura do próprio Pedro, já que em momento algum ele aparece nas páginas da HQ, mas o tempo todo os personagens quebram a quarta parede e conversam com o leitor, como se estivessem se reportando ao quadrinista.

O quadrinho tem um potencial transformador primeiro pela importância da temática como um todo, depois pela abordagem. É impossível não se sensibilizar com os relatos sobre o preconceito ou sobre como o trabalho dos catadores, apesar de essencial, ainda é tão precarizado, tão desvalorizado socialmente. Porém nunca faltou luta, é o que essas três histórias deixam evidente.

A arte traz linhas simples, com ótimas composições. Em algumas páginas, Pedro ousa mais e elimina as fronteiras dos quadros e usa a página toda para criar painéis onde a história se desdobra, algo que ele já havia apresentado, e muito bem, em Orbital.

Publicado pela Conrad, A Coleta entra para a lista de belos exemplares do jornalismo em quadrinhos brasileiro. Pedro Vó nos coloca frente a frente com realidades distintas da nossa, em uma obra que é palco para seus protagonistas. Pelo menos nas páginas desse quadrinho, Bispo, Litz e Maura têm a importância que lhes é devida.

Publicado em

Orbital

De Pedro Vó
108 páginas
Balão Editorial | 2022

Em Orbital, Pedro Vó faz uma autobiografia sincera, em que não se poupa de críticas ao se olhar de longe, mas ao mesmo tempo de dentro. O resultado é um quadrinho que às vezes soa como um ensaio, mas é um retrato contundente sobre a maneira como a modernidade e a nossa percepção de tempo afetam a saúde mental.

Lidando com o trabalho em uma agência de publicidade durante o dia e a faculdade durante a noite, Pedro relata sua rotina do ano de 2018, quando percebeu que algo não estava bem consigo e passou a fazer terapia. A maneira como o autor aborda tanto as trivialidades do cotidiano como cenas de maior tensão é criativa, com painéis que mesclam elementos e cenas, sem requadros.

A narrativa é também um destaque, afinal, essa proposta fluida na arte confere ao quadrinho a ideia de que estamos seguindo um fluxo ao lado do autor. Da passagem do tempo, às mudanças de ambiente: sabemos muito mais pela arte do que pelo texto, que é bem econômico aqui. Apesar de nem sempre as proporções (principalmente dos personagens) serem mantidas, há ótimas cenas com ângulos diversos.

Em órbita ao lado do autor, somos embalados por sua história e até nos projetamos nela. Há uma identificação automática, quando se lembra dessa fase transitória na qual é necessário “virar adulto de verdade” em um mundo acelerado.

Publicado pela Balão Editorial, Orbital consegue, com sua proposta de uma narrativa etérea, rompendo margens tradicionais dos quadrinhos, ser uma leitura tocante e altamente relacionável. Estamos vendo a história do outro, mas é impossível não pensar em nós mesmos.