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Fora do Roteiro: Quando e onde foi feito o primeiro quadrinho da história?

O Fora do Roteiro é uma coluna de PJ Brandão, do HQ Sem Roteiro, no Fora do Plástico. Esse conteúdo tem também uma versão em vídeo, que recomendamos muito que você assista AQUI.

Na introdução de seu livro Imageria, Rogério de Campos afirma que o primeiro quadrinho da história foi O Menino Amarelo (Yellow Kid), de 1895, lançado nos Estados Unidos. Só que todas as características que fazem as pessoas chamar O Menino Amarelo de quadrinho já estavam presentes na primeira HQ da história, Little Bears, de 1892. Só que tudo que faz de Little Bears um quadrinho já estava presente na obra de artistas como Caran d’Ache, alguns anos antes. Conseguiu captar a ideia?

 

A brincadeira proposta por Rogério de Campos é a de desmistificar a ideia de que existe um momento fundador dos quadrinhos. E aponta de certa forma que falar de uma origem dos quadrinhos é falar também de nacionalismos. Todo país quer invenções pra chamar de suas.

Acontece que a linguagem dos quadrinhos nasce de forma espalhada. É um fenômeno descentralizado que se desenvolve mais ou menos na mesma época sob o lápis de várias pessoas ao redor do mundo. Pessoas que não necessariamente tinham contato entre si, o que deixa tudo mais estranho e fascinante.

Quer uma evidência dessa descentralização? Nos Estados Unidos, quadrinhos se chamam comics, em relação às primeiras histórias que usavam imagens lado a lado em uma superfície impressa. Eram histórias de humor, cômicas.

O humor também nomeou os famosos mangás japoneses. “Man” quer dizer humor, “gá” quer dizer desenhos. Então mangá quer dizer algo como “desenhos irreverentes”. Na Itália, temos o fumetti ou fumetto, que quer dizer fumaça, em referência ao formato dos balões de fala. Na França, temos a bande dessinée. Em Portugal, banda desenhada. Banda se refere ao formato de fita de uma tira de quadrinhos.

No Brasil, durante certo tempo na virada do século XIX pro XX, a linguagem foi chamada de histórias em quadradinhos, mas graças a Deus alguém decidiu diminuir um pouco o termo e hoje chamamos de histórias em quadrinhos, ou mesmo HQ.

Cada país criou sua cultura em torno dessa linguagem. E cada país a batizou de uma maneira diferente. Essa para mim é uma das maiores evidências dessa descentralização da origem dos quadrinhos. O berço esplêndido desse nascimento foi, ao mesmo tempo, o mundo todo. Um jeito de contar história que tem muitas mães e muitos pais espalhados por aí. Algo que não deixa de ter um pouco de poético.