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Ônibus

De Paul Kirchner
96 páginas
RISCØ | 2022
Tradução: Érico Assis

Ônibus é daqueles quadrinhos que brincam diretamente com o leitor. São as suas expectativas e certezas que estão ali, colocadas à prova, em uma situação tão banal como aguardar no ponto de ônibus. Só que esse ônibus em questão é uma ponte para o surreal. O que Paul Kirchner faz nessas tiras é inusitado, divertido e jamais cai na monotonia, mesmo quando já nos habituamos com a lógica torta da obra.

Quando um homem entra no ônibus, o resultado pode ser dos mais diversos. Ele pode se deparar com outra realidade do lado de fora das janelas, com passageiros curiosos ou com quebras dos limites da realidade e dos quadrinhos. Paul Kirchner nos torna testemunhas dessas situações inusitadas que têm sempre como objetivo arrancar, no mínimo, um riso esperto do leitor. Mas se engana quem pensa que esse homem careca, trajado de óculos e sobretudo, é o protagonista. A grande estrela é o ônibus e seu universo particular, que vai do motorista, às placas, à faixa de pedestres.

Os cenários, muito urbanos, são parte daquilo que torna Ônibus tão interessante: as rupturas. Situações que parecem corriqueiras, locais que são parte do cotidiano de uma grande cidade, tudo é brilhantemente transmutado na HQ. Vale ressaltar que a grande maioria das histórias é muda, deixando a cargo da narrativa gráfica o entendimento do leitor. Mesmo lendo as tiras em sequência, a criatividade de Kirschner surpreende, enquanto ele brinca com a linguagem dos quadrinhos ou fazendo referências a outros artistas, fatos históricos ou elementos já intrínsecos à nossa cultura.

A arte em preto e branco do quadrinista, que usa muito bem as hachuras, é fundamental para o tom fantástico, mas ao mesmo tempo firmado na realidade. Ônibus parece estar no limiar, é e não é abstrato, é e não é real.

Publicado pela editora Risco, Ônibus reúne todas as tiras publicadas originalmente na revista Heavy Metal, entre 1978 e 1985. Recheado dos melhores absurdos que uma história sobre ônibus poderia trazer, a HQ não é só um exercício surrealista. É possível enxergar críticas, cenas provocativas, mas a verdade é que o melhor mesmo são os caminhos que Kirschner encontrou para fazer humor.