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Patos – Dois Anos nos Campos de Petróleo

De Kate Beaton
440 páginas
WMF Martins Fontes | 2023
Tradução: Caroline Chang

Entre 2005 e 2009, Kate Beaton trabalhou e viveu em campos de extração de petróleo, nas areias betuminosas de Alberta, no Canadá, para quitar seu empréstimo estudantil. O que vemos em Patos, publicado pela WMF Martins Fontes, é um testemunho denso sobre o que a autora enfrentou ali, um ambiente completamente masculino.

Patos chegou ao Brasil já multipremiado. E, bem, sabemos que prêmios podem gerar expectativas, mas as 440 páginas da HQ conseguem romper e superar aquilo que imaginávamos. Este não é um grande drama, mas também está longe de ser uma leitura confortável. Como a própria Kate aponta em seu posfácio, os campos onde trabalhou formavam uma sociedade única e encapsulada. Um lugar que afeta, de diferentes maneiras, quem passa por lá.

O relato de Beaton se centra naquilo que ela viveu, ouviu e sentiu. Em um local em que há uma mulher para cada 50 homens, o machismo não está nos detalhes. É isso que a quadrinista expõe quando relembra as piadinhas, os assédios nítidos e velados, o comportamento predatório de vários de seus colegas de trabalho. Nenhuma novidade em relação ao que as mulheres cotidianamente enfrentam, mas nas isoladas areias betuminosas, tudo se intensifica.

Patos é capaz de trazer um contexto muito claro sobre aquela realidade, sem se afastar do formato proposto. É uma obra esclarecedora, mas seu maior trunfo é a sensibilidade, que não é deixada de lado pela crueza do tema. E mesmo que cheio de situações revoltantes, a HQ não encara tudo de uma forma maniqueísta. Porém, nada de minimizar traumas e sentimentos adversos, como a culpa.

A arte cartunesca contrasta com os cenários mais detalhados e grandiosos, como se os personagens fossem engolidos pelo que está ao redor. As páginas têm layouts que seguem um padrão… até que nos deparamos com momentos em que um vazio cortante é representado nos espaços em branco das páginas.

Não à toa Patos conquistou tantos leitores. Mesmo que cada um se relacione de formas diferentes com a história contada, é impossível ficar indiferente. Estamos diante de um quadrinho marcante, daqueles que ficam por muito tempo conosco.