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O Último Recreio

De Carlos Trillo e Horacio Altuna
136 páginas
RISCØ | 2022
Tradução: Jana Bianchi

O Último Recreio, de Carlos Trillo e Horacio Altuna, foi o pontapé inicial da RISCØ, em um novo momento da editora, que agora passa a apostar também em títulos internacionais. A identidade da infância é subvertida neste quadrinho, que traz um retrato cruel da influência do meio sob a natureza humana, perturbando o leitor ao mostrar a inocência destruída.

Na trama, uma arma biológica mata todos aqueles que atingiram a puberdade, deixando as crianças como os únicos sobreviventes. Ao longo de doze histórias curtas, vamos acompanhar os pequenos lidando com um mundo sem qualquer direcionamento dos adultos, sem regras e com medo de crescer. Afinal, sentir desejo sexual é sinônimo de morrer.

Portanto, é questão de tempo para tudo começar a desmoronar. À medida que a situação foge do controle, elas recorrem aos piores impulsos da humanidade. Trillo demonstra que o ser humano, independente da idade, é capaz de se transformar quando o poder e a sobrevivência estão em jogo. Algumas das crianças até respondem ao “novo universo” com esperança, na tentativa de seguir em frente de uma forma mais organizada, mas é apenas um vislumbre. Violência, tirania e desespero estão por toda parte.

Apesar de a HQ ser dividida em várias histórias curtas, existe uma linha temporal, uma sequência nos acontecimentos. Outro ponto a destacar é a alternância dos personagens, não existem protagonistas aqui, eles vão e voltam, entre os capítulos.

O visual do quadrinho chama muita atenção. Horacio Altuna cria um cenário moribundo, com muitos detalhes que reforçam como o ambiente está sem qualquer organização. Uma cidade caótica. Também é preciso falar sobre os layouts das páginas. Para além de trazer mais fluidez à leitura, eles corroboram com o suspense.

O desejo de poder de uns, a ingenuidade de outros. O resultado é uma atmosfera perturbadora em O Último Recreio. Uma obra que nos permite refletir, mesmo em um contexto atípico, as nossas falhas enquanto sociedade, o desamparo e o comportamento humano diante de situações extremas.