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O Sistema

De Peter Kuper
120 páginas
Monstra | 2023

O Sistema, de Peter Kuper, trata a cidade como um organismo, em suas mazelas e encantos. Aqui, a cidade em questão é Nova York, mas para o leitor poderia ser outros grandes centros pelo mundo, em que vidas se cruzam e o tal sistema do título é ao mesmo tempo figurativo e real. É por isso que é difícil não prender os olhos nas muitas histórias contadas e na maneira como elas se entrelaçam, mesmo sem qualquer balão.

O fato de esse ser um quadrinho mudo não o torna silencioso. Muito pelo contrário. É possível ouvir o som do metrô passando rapidamente, das sirenes da polícia, do noticiário na TV. Essa sensação é quase sinestésica com o amontoado de estímulos visuais da grande metrópole. Entre esquinas, ruas e viradas de página estão os personagens dessa (ou dessas) história(s). Motoristas, strippers, policiais corruptos, executivos, pessoas em situação de rua e tantos outros vivem suas rotinas, que apesar de particulares estão sempre se esbarrando umas nas outras.

A narrativa gráfica de Kuper torna fantásticos esses pontos de conexão entre personagens. Ele guia nossos olhos e distribui cuidadosamente os elementos pelas páginas, para que a transição seja clara, afinal, tudo está apenas nas imagens. A sensação que temos é de testemunhar reações em cadeia individuais que, simultaneamente, são efeitos de algo maior: o contexto social, econômico e político da Nova York do final da década de 1990.

Outro ponto que impressiona é a técnica usada pelo quadrinista, spray sobre um estêncil cortado com as ilustrações, como base das cores de cada página. Os detalhes são aplicados depois, com outras técnicas de desenho e pintura. O resultado é uma arte cheia de texturas e cores. A edição da Monstra ainda tem um cuidado especial na tradução dos letreiros, como páginas de jornal, placas, grafittis, que são um suporte para o contexto da trama.

O Sistema é daquelas obras em que sentimos o poder da linguagem dos quadrinhos. Peter Kuper mostra a impossibilidade de vivermos isolados, mas não torna essa visão idealista demais. A HQ tece críticas e denuncia as incoerências e prejuízos do tal sistema, sem perder de vista quem são seus muitos agentes.