De Didier Comès
160 páginas
RISCØ | 2025
Tradução: Renata Silveira
Didier Comès cria, em Silêncio, uma história mística e ousada. De início, imaginamos estar diante de uma trama convencional protagonizada por um jovem mudo, com deficiência intelectual, que é oprimido por um patrão cruel. Porém, aos poucos, a fantasia vai tomando conta da trama e nos vemos diante de um conflito mágico, feitiços e consequências fatais.
O protagonista, Silêncio, vive em um vilarejo aparentemente pacato que é, na verdade, um poço de segredos. Essa aura de mistério que domina o início da trama é um convite para que o leitor avance rapidamente pelas páginas. A dicotomia entre a inocência e bondade de Silêncio e os desejos vingativos daqueles que o cercam é uma marca central do quadrinho, que se desdobra em uma reflexão sobre violência e poder.
Ao mesmo tempo que esta é uma HQ direta em sua narrativa, há um refinamento na estética e no modo como a história é contada. Pode parecer curioso, no início, mas logo Comès nos mergulha em sua proposta. Por ter sido publicada originalmente como álbum em 1980, há algumas marcas do tempo na mescla entre texto e imagem, principalmente no excesso de ações narradas pelos personagens.
A arte é elegante, sutil, perfeita para a ambientação. A magia, tão presente na HQ, está representada através de alguns de seus símbolos clássicos, o que remete ao nosso imaginário sobre a bruxaria. Destaque para as expressões dos personagens que, com traços mínimos, se tornam marcantes, como é o “olhar de serpente” do ingênuo Silêncio.
Publicado pela Risco, Silêncio é uma experiência de leitura, no mínimo, rara ao abordar a crueldade humana enquanto traz a fantasia como elemento essencial. Comès provoca sensações distintas, algumas amargas e outras doces nesta fábula sombria, em que a inocência enfrenta a brutalidade.