De Bea Lema
176 páginas
Comix Zone | 2025
Tradução: Fernando Paz
O Corpo de Cristo estica o que poderíamos chamar de convenções dos quadrinhos ao explorar composições de página e até materiais para contar uma história profundamente íntima. Bea Lema produz uma autoficção sobre uma criança atormentada pelos demônios que perseguem sua mãe. Fanatismo religioso, medo e opressão se misturam à relação entre mãe e filha, quando os papéis de cuidado e afeto são invertidos.
Desde cedo, a pequena Vera aprendeu que havia algo de errado com sua mãe, Adela. Os médicos diziam que ela sofria de um transtorno mental, mas Adela sabia que o problema era outro: um demônio estava sempre à espreita. A convivência nesse lar marcado por um catolicismo quase místico entranhado nos costumes é retratada como um tormento digno do purgatório. Porém, todos os sentimentos mais intensos poderiam ser abrandados pelo carinho incondicional de Vera por sua mãe. De criança acuada, a protagonista se transforma em cuidadora zelosa e o leitor vê essa relação passar diferentes estágios, até compreender, enfim, a raiz daquilo que assombra Adela.
O Corpo de Cristo é uma leitura profundamente tocante. Bea Lema constrói desde o olhar infantil às representações do medo irracional com a mesma habilidade. Enquanto aborda uma questão tão particular, ambientada em uma Espanha extremamente católica, vemos ecoar situações e crenças em nossas criações e experiências, em outro tempo, outro lugar.
A quadrinista espanhola detalha essa relação sensível em páginas multicoloridas em papel e caneta, mas também em bordados. A ideia já soa criativa por si só, mas a execução é ainda mais impressionante. Cada página desta HQ poderia ser um quadro, não apenas as bordadas. Os personagens são expressivos e possuem uma linguagem corporal muito bem trabalhada, ao mesmo tempo que podem parecer simples no primeiro olhar.
Publicado no Brasil pela Comix Zone, O Corpo de Cristo é ousado na forma e impactante no conteúdo. Bea Lema nos conduz por uma história que sozinha já teria muito potencial, mas alcança outro patamar pela maneira brilhante como é apresentada ao leitor.








