De Tom King, Peter Gross e Tamra Bonvillan
176 páginas
Taverna do Rei | 2026
Tradução: Carlos H. Rutz
Em O Abrigo dos Animais, Tom King recorre ao clássico de George Orwell para fazer uma alegoria com a política moderna dos EUA. No entanto, no lugar de animais da fazenda, o roteirista desloca a ambientação para um abrigo com cães, gatos e coelhos. Embora parta da ideia de uma revolução animal que toma o poder de um espaço antes dominado por humanos, a HQ desenhada por Peter Gross, com cores de Tamra Bonvillan, não se prende ao original e funciona como uma reinterpretação, com ecos urgentes do nosso tempo.
Na trama, a gata Fifi e o cão Titã iniciam uma revolta, inspirados pela esperança do cão Bento. Depois de render o único funcionário do abrigo, eles libertam todos os animais e definem uma regra máxima: as portas ficarão abertas. Para esses animais domésticos, a liberdade é aquele microcosmo onde eles podem ditar as próprias regras. É assim que surge uma sociedade regida de forma igualitária, apesar das diferenças entre espécies, com eleições e representação popular.
Na primeira metade da HQ, o enredo é dedicado a definir as estruturas dessa sociedade animal, que parece funcionar muito bem ao longo dos primeiros governos. Até que Porquim, uma figura sempre coadjuvante, chega ao poder e os ensinamentos de Bento são subvertidos. Porquim é uma referência clara a Donald Trump. Até as palavras do bulldogue soam como as do presidente dos EUA e O Abrigo dos Animais se torna uma alegoria mais que atual.
Como já havia feito em outras obras, Tom King usa os recordatórios quase como um texto em prosa – o que nem sempre funciona. Neste caso, com a referência literária como base, o resultado é muito bem-vindo. Gross e Bonvillan têm a difícil missão de trabalhar com um ambiente restrito, mas conseguem brilhar na versátil representação dos animais. Há gatos de todas as cores, cães de todas as raças e coelhos fofíssimos.
Por mais que Tom King esteja evidentemente falando dos EUA, de sua história e do seu presente, O Abrigo dos Animais pode ser lido como uma reflexão sobre a fragilidade das democracias, quando as instituições dormem. Publicado pela Taverna do Rei, esse é um quadrinho que pode deixar um gosto ácido, mas necessário.









