
O mercado global de mangás tem crescido ano a ano, como mostram diversas pesquisas recentes, e deve atingir um faturamento superior a US$ 63,08 bilhões por ano até 2033. Por outro lado, no Japão, a venda de mangás enfrenta uma mudança de tendência, após sete anos seguidos de crescimento ininterrupto. A informação consta nos últimos dados levantados pelo Instituto de Pesquisa em Ciência Editorial da Associação de Editores do Japão, que registraram uma queda de 1,7% nas vendas totais de quadrinhos japoneses no mercado interno, resultando num faturamento de 692,5 bilhões de ienes (aproximadamente R$ 22,67 bi), em 2025 — cerca de R$ 384 milhões a menos do que no ano passado.
A contração parece pequena e poderia indicar uma oscilação comum para qualquer mercado. No entanto, os números relativos às vendas de impressos caíram de maneira significativa, de modo que o crescimento mais tímido do meio digital, que subiu apenas 2,9% no ano passado, não foi suficiente para conter o momento de estagnação.
De acordo com a pesquisa, o setor impresso viu cair em 14,4% as vendas de volumes tankobon, encadernados que reúnem capítulos e formam as coleções de cada série. A revistas de pré-publicação — tais como a Shonen Jump, da Shueisha, a Afternoon, da Kodansha, e a Big Comic Original, da Shogakukan, que trazem edições periódicas com os capítulos de vários títulos antes deles serem reunidos em volumes específicos — tiveram, por sua vez, um declínio de 12,7%.

Cenário japonês em desaceleração
Atualmente, o mercado digital ocupa mais de 76% das vendas de mangás no Japão. A pesquisa revela, entretanto, que o crescimento de outrora não se manteve ao longo dos últimos anos e os números dos ebooks não possuem mais o fôlego necessário para compensar as perdas do papel.
Em outras palavras, se a tendência de estabilização no meio digital, que deixou de ser uma novidade, for confirmada e acompanhada de um crescente declínio na venda dos mangás impressos, é possível que haja uma queda significativa de faturamento nos próximos anos, no mercado japonês.
Além da maturidade do meio digital, o levantamento sugere outros dois fatores que podem explicar a desaceleração. O primeiro deles se deve ao fim de grandes sucessos, como “Jujutsu Kaisen”, “My Hero Academia” e “Oshi no Ko”, que deixaram um vazio que os lançamentos mais recentes ainda não conseguiram preencher. Por fim, uma crise logística na distribuição de mangás em lojas de conveniência (as kombini) também afetou a disponibilidade das revistas de pré-publicação, segundo a pesquisa.

Diante da estagnação no mercado interno, o Japão passa a olhar de vez para o exterior. Um dos movimentos recentes mais importantes foi a aquisição da Seven Seas, uma das principais editoras norte-americanas de mangá, pela Media Do, gigante japonesa do ramo da distribuição digital, por U$ 80 milhões, no início do mês. Enquanto o objetivo do governo japonês é triplicar o valor das exportações até 2033, a iniciativa torna clara a estratégia editorial de se colocar no centro do mercado de publicações de língua inglesa, onde o livro físico ainda domina, representando cerca de 9 a cada 10 vendas.





