Mangaká é condenado por abuso sexual e editora é acusada de acobertamento

Caso envolve o autor de “Joujin Kamen” e expõe falhas e omissões na condução da Manga ONE.

3 março 2026
Imagem de “Joujin Kamen”.

A Shogakukan, uma das maiores editoras de mangá do Japão, atravessa uma das crises institucionais mais delicadas de sua história recente. O motivo foi a condenação de Hajime Ichiro, um dos pseudônimos de Kazuaki Kurita, por abusos sexuais cometidos contra uma menor de idade. O caso, que teve início em 2016, resultou em sentença judicial contra o agressor e expôs a conivência da Manga ONE, plataforma digital da editora japonesa.

Autor de “Joujin Kamen”, Kurita foi condenado a pagar 11 milhões de ienes (cerca de R$360 mil) em indenização à jovem identificada apenas como “A.”. Os crimes teriam ocorrido ao longo de aproximadamente três anos, período em que a vítima tinha 15 anos e era sua aluna em um curso de desenho em uma escola de Hokkaido. De acordo com a denúncia, o então professor aliciava sistematicamente a vítima. Ele oferecia caronas e, costumeiramente, desviava o trajeto para cometer os abusos. Durante o julgamento, a defesa alegou que a relação teria sido consensual, argumento que foi rejeitado pelo juiz.

Segundo a defesa da jovem, “A.” era submetida a situações degradantes e, além das violências sofridas, também enfrentava manipulação psicológica constante. Em decorrência dos abusos, a vítima desenvolveu transtorno dissociativo e síndrome de estresse pós-traumático.

Além da conduta criminosa de Kazuaki Kurita, o caso ganhou grande repercussão pela postura da Shogakukan. A editora teria adotado, ao longo dos anos, uma série de medidas para preservar sua imagem e acobertar o autor. A primeira delas ocorreu em 2020, quando Kurita foi formalmente multado e condenado por posse de pornografia infantil. Naquele período, o mangaká publicava o shonen “Daten Sakusen” na plataforma Manga ONE, sob o pseudônimo Shouichi Yamamoto. A editora anunciou que a obra entraria em hiato por questões de saúde do autor, omitindo do público e de outros artistas da revista a natureza criminal que motivou a interrupção da serialização.

Imagem de divulgação da plataforma MangaONE | Divulgação: Shogakukan.

Em outubro de 2022, meses após o cancelamento oficial de “Daten Sakusen”, Kurita retornou à plataforma Manga ONE com seu mangá atual, “Joujin Kamen”. A obra passou a ser assinada pelo pseudônimo Hajime Ichiro. Nem o público leitor nem a nova colega de Kurita, responsável pela arte do novo mangá, foram informados de que Hajime Ichiro era, na verdade, a mesma pessoa que Shouichi Yamamoto e que ele possuía um histórico criminal.

O caso ganhou novos contornos com o depoimento da vítima após a última condenação de Kurita, no fim do mês passado. “A.” revelou que, em maio de 2021, quando estava prestes a entrar com uma denúncia formal contra o mangaká, o editor Takuya Narita a convidou para uma chamada de vídeo e, na presença de Kurita, ofereceu a ela 1,5 milhões de ienes para assinar um documento confidencial que garantiria o seu silêncio. Segundo a vítima, o objetivo era não apenas impedir um possível processo, como também permitir que o autor continuasse sua carreira sem manchar sua reputação. “A.” denunciou o mangaká em julho de 2022, meses antes da estreia de sua nova série pela Shogakukan.

No último dia 26, a Shogakukan enfim admitiu ter errado na condução do caso, dizendo que não havia percebido “a gravidade da situação” e que a equipe editorial não deveria ter permitido a contratação do autor para a série “Joujin Kamen”. A editora acrescentou que a serialização da obra foi cancelada e a comercialização dos títulos do autor foram suspensas.

Prédio da Shogakukan, em Tóquio | Foto: Kounoichi/Wikimedia Commons

A resposta da Shogakukan muito se deve ao pronunciamento e ao boicote de diversos autores à plataforma Manga ONE. Entre eles estão nomes como Rumiko Takahashi, criadora de “InuYasha” e “Ranma ½”, além de Kanehito Yamada e Tsukasa Abe, autores de “Frieren e a Jornada Para o Além”, atualmente o título mais rentável da editora. No entanto, dois nomes tiveram papel central na pressão por uma mudança de postura. Sumi Eno, de “After God”, e Sumito Owara, de “Keep Your Hands Off Eizouken!”, atuaram como investigadores independentes, reunindo informações sobre o caso e oferecendo apoio tanto à vítima quanto à ilustradora Eri Tsuruyoshi, envolvida na produção de “Joujin Kamen”.

Atendendo às exigências dos mangakás, foi instituído um comitê para apurar as circunstâncias que levaram à condução inadequada do caso. Os quadrinistas exigem transparência e colaboração por parte do alto escalão da editora Shogakukan para que se descubra quem estava a par do histórico de Kazuaki Kurita no momento de sua readmissão como autor da Manga ONE e, assim, garantir a responsabilização dos envolvidos.

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