
Em 1970, Osamu Tezuka publicou o mangá “Nagai Ana” (Longo Túnel, em tradução livre), um título pouco conhecido, no qual o mangaká aborda a opressão sofrida por coreanos no Japão. Republicado apenas uma vez nas antologias da obra do deus dos mangá, o título ganhará uma nova edição. Já disponível nas livrarias japonesas, o mangá faz parte do catálogo da University Press, editora especializada em livros acadêmicos.
A história se passa durante o boom econômico do Japão. Moriyama, um coreano que obtém a cidadania japonesa, esconde suas origens para construir uma carreira, porém quando seu passado vem à tona, ele se vê entre o racismo e os traumas da Segunda Guerra. O personagem foi vítima de trabalhos forçados no Monte Togariyama, na província de Gifu, durante a Segunda Guerra Mundial. Sob condições extenuantes, Moriyama sofria maus-tratos e via seus companheiros morrerem.
Este não foi o primeiro trabalho de Tezuka a criticar a discriminação sofrida pela comunidade coreana no Japão. Alguns anos antes da publicação de “Nagai Ana”, o autor escreveu em um texto para o jornal Choson Sinbo que dizia se sentia envergonhado pelo tratamento dado aos coreanos, e defendia o direito de acesso à educação, como conta o portal italiano Fumettologica.

O mangá de 50 páginas saiu originalmente na revista semanal Sunday Mainichi e foi relançado apenas uma vez: no segundo volume da antologia de histórias curtas “Under the Air”, publicada em 1972. O título foi descoberto pelo editor Ken Akahane, em 2023, quando estava estudando a representação de minorias no cinema, livros e mangás.
“Eu acredito que não há outro mangá que apresente um coreano étnico como protagonista e retrate a realidade da discriminação contra residentes coreanos étnicos e seu sofrimento de forma tão direta como este”, relatou o editor em entrevista ao jornal Asahi Shimbun.
Segundo o jornal, Akahane entrou em contato com a Tezuka Productions Co., administradora dos direitos das obras do autor, e obteve a aprovação. A nova edição acompanha comentários de especialistas que oferecem um contexto histórico para a história e sua publicação original. Nas opinião do editor, os leitores serão impactados pela dor de Moriyama, sobretudo porque o preconceito contra estrangeiros tem crescido nas redes sociais japonesas.
O crítico japonês Masashi Ichihara especulou, em ensaio publicado no site AICA JAPAN Critique, que os temas abordados no mangá podem ser um dos motivos para a sua não republicação durante tanto tempo. Os detentores dos direitos não comentaram o caso.










