
A casa de leilões norte-americana Heritage Auctions, conhecida por sua atuação no ramo dos artigos colecionáveis, resolveu adiar a venda de uma série de manuscritos, rascunhos e cartões autografados cuja autoria era atribuída a Akira Toriyama, criador de “Dragon Ball”. A informação ganhou destaque no portal italiano Fumettologica, especializado em quadrinhos.
A decisão foi tomada após a ampla repercussão nas redes sociais e fóruns especializados, onde colecionadores e fãs questionaram a autenticidade e a procedência dos materiais. As suspeitas se deram sobretudo por inconsistências nas assinaturas e pelos lances iniciais considerados muito abaixo do convencional.
Além das especulações dos leitores, um profissional do meio deu sua opinião sobre o material: Kazuhiko Torishima, o controverso editor da Shonen Jump responsável por “descobrir” Toriyama. Em sua conta no X (antigo Twitter), Torishima afirmou ser bastante provável que os supostos originais listados no leilão sejam copiados ou mesmo falsificados.

Ainda de acordo com o editor, na época em que Toriyama produziu os seus principais trabalhos, os profissionais do corpo editorial da Shonen Jump utilizavam reproduções para as reuniões de planejamento, enquanto os originais permaneciam cautelosamente guardados pela editora ou pelo próprio autor em sua residência, em Nagoya, o que torna improvável que esboços pudessem ter circulado de modo irrestrito no mercado internacional.
Apesar do ceticismo de Torishima, Genis Puig, editor espanhol da Selecta Visión, ponderou em um fio no X que seu argumento faz sentido dentro do fluxo de trabalho editorial japonês, mas não encerra completamente o debate. “Porque aqui não estamos falando de layouts de página finalizados ou nemu padrão. Estamos falando também de esboços conceituais e materiais preparatórios“, observou Genis Puig.
Ele revela que boa parte das artes que hoje estão em contestação já eram conhecidas do público através da BirdLand Press, espécie de arquivo informal sobre a obra do mangaká. É possível, na visão do espanhol, que a morte recente de um de seus idealizadores, Tsuneo Matsumoto, em abril, tenha desencadeado a atual onda de especulações e venda de acervos.

Há ainda uma dimensão sociocultural em torno do debate, aponta Genis Puig no fio. Para ele, a polêmica traz consigo o temor japonês de perder o controle sobre o seu acervo histórico. “Fiquei surpreso com a reação de alguns fãs japoneses. Não parecia uma discussão sobre autenticidade. Parecia uma reação emocional a uma suposta ‘apropriação cultural’. E acho que é aí que reside um debate incômodo. Dragon Ball nasceu no Japão. Mas Dragon Ball não é mais exclusivamente japonês. É cultura global”, avaliou Genis Puig.
“Crescemos com Goku em Barcelona, Cidade do México, Paris ou São Paulo, assim como em Tóquio. Nascer em um país não te torna automaticamente o dono emocional de toda a sua cultura popular“, completou.
Agora, a Heritage Auctions aguarda a conclusão de uma perícia técnica para poder validar, ou não, as peças ofertadas no leilão, agora marcado para o mês de outubro nos Estados Unidos.





