Nota 4.5

Duas Moças Nuas

19 novembro 2025

De Luz
192 páginas
Conrad | 2025
Tradução: Flávia Yacubian

No multipremiado “Duas Moças Nuas”, Luz conta a história do quadro que dá nome à HQ pela própria perspectiva da pintura criada por Otto Mueller em 1919. É a obra quem acompanha as mudanças do mundo ao longo de um século. Sob “seus olhos”, acompanhamos a ascensão da extrema-direita, o ódio e a ignorância que marcaram o passado, especialmente no período nazi, ao mesmo tempo em que vemos a resiliência da arte diante de quem tenta apagá-la ou silenciá-la.

O quadrinho ganha outra camada quando descobrimos que o autor foi um dos sobreviventes do atentado ao Charlie Hebdo em 2015. Nesse ponto, os paralelos se tornam inevitáveis, e fica claro como Luz também fala do presente, ainda que de maneira cifrada.

Também impressiona a profundidade da pesquisa que sustenta o quadrinho, um trabalho que inclusive se estende até os extras. Mas, desde o início, o que realmente se destaca é a escolha de narrar tudo pelo ponto de vista da própria pintura. Esse recurso coloca o quadro na mesma condição que nós, leitores, como espectadores incapazes de interferir.

Assim, apenas testemunhamos a arte atravessar o tempo sendo amada e odiada na mesma intensidade. O resultado é um livro extremamente ancorado na história, mas também inegavelmente atual.

Nos desenhos, Luz trabalha muito bem a perspectiva do quadro. O tempo todo somos lembrados desse “olhar” através dos enquadramentos. O visual é elegante, com cores escolhidas com cuidado para representar o período histórico.

Publicado pela Conrad, “Duas Moças Nuas” é o ponto de partida para Luz refletir sobre a força da arte e a preservação da memória. Ao transformar uma pintura em testemunha da história, ele mostra como a arte continua resistindo, mesmo quando tentam apagá-la.

Carrinho atualizado