De João Marcos Mendonça
184 páginas
Nemo | 2025
Em Doce Amargo, João Marcos Mendonça constrói um relato íntimo e realista sobre as consequências do crime ambiental de Mariana. Indo além da tragédia em si, o autor mostra como a vida de sua família e dos habitantes de Governador Valadares, no interior de Minas Gerais, foi profundamente afetada pelo desastre.
No dia 5 de novembro de 2015, a Barragem de Fundão, em Mariana, rompeu. O impacto imediato foi o desaparecimento do distrito de Bento Rodrigues e a morte de pessoas, mas os efeitos do desastre se espalharam de forma devastadora por diversos municípios ao longo do curso do Rio Doce. Em Governador Valadares, cidade abastecida pelo rio, a lama tóxica contaminou a principal fonte de água, alterando a rotina dos habitantes e a própria noção de normalidade.
Ao transformar essa experiência em quadrinhos, João entrega uma obra que funciona ao mesmo tempo como exercício de memória e também de denúncia. A trama cobre exatamente o primeiro ano após o rompimento, registrando o caos cotidiano desse período, do racionamento de água, com meses de banhos de caneca, às versões e mentiras difundidas por autoridades. Mesmo quem não viveu diretamente as consequências do desastre é levado a sentir a angústia e a revolta que atravessam cada página da obra.
É inevitável lembrar do trabalho de Fabien Toulmé, enquanto avançamos nas páginas de Doce Amargo. Não apenas pelo traço cartunesco (que também é marca registrada do próprio João Marcos), mas também pelo tom que alterna entre o documental e o pessoal, sem abrir mão de momentos de humor. Esse equilíbrio ajuda a tornar a leitura mais fluida e humana.
A arte econômica nos detalhes é extremamente funcional e ganha ainda mais força com as ótimas cores de Mariane Gusmão. Além disso, a divisão em capítulos curtos dá um bom ritmo ao relato, às vezes dividido em temáticas dentro da mesma experiência.
Lançado pela Nemo, Doce Amargo é um dos grandes lançamentos do ano. Ao unir memória e denúncia, a HQ não apenas relembra o desastre de Mariana, como também insiste em manter viva a discussão sobre suas consequências e, principalmente, seus responsáveis.






