
Um dos grandes clássicos da literatura brasileira, “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, chegará aos quadrinhos. A Quadrinhos na Cia. prevê para o segundo semestre de 2027, ano em que o título completa 90 anos, o lançamento da HQ assinada por Rodrigo Rosa, que reconta os passos dos meninos do trapiche. O quadrinista, que também atua como editor na Figura, tem trabalhado no projeto desde 2023.
“Os Sertões – A Luta”, “Macunaíma”, “Grande Sertão: Veredas”, “O Cortiço”, “Dom Casmurro”: a lista de adaptações assinadas por Rodrigo Rosa é longa. “Eu já tenho uma boa experiência com adaptações – tanto me encarregando apenas da arte, quanto também adaptando o texto –, mas é a primeira vez que faço tudo sozinho“, explica. Nos outros projetos, ele contava com pelo menos um assistente para fazer a cor base das páginas. “Como acabei optando por uma colorização digital que simula a aquarela, essa é uma técnica muito pessoal e então eu estou tomando conta de tudo“, revela.
Publicado originalmente em 1937, o livro retrata a vida de um grupo de meninos de rua, liderados pelo carismático Pedro Bala, que vivem à margem da sociedade. Para sobreviver, eles recorrem a pequenos furtos pelas ruas de Salvador, enfrentando diariamente a violência e o abandono. A dinâmica do grupo muda com a chegada de Dora, a única menina a integrar os Capitães da Areia, cuja presença traz novas camadas de amizade e afeto.
A versão em quadrinhos será fiel ao original, destaca Rodrigo. “A época e as características dos personagens serão mantidas, mas vai haver alguns cortes de poucos episódios e uma reformulação de algumas situações, para se adequarem à linguagem dinâmica que quero dar à HQ“. O projeto pretende chegar às escolas, o que exigirá do artista cuidado com os trechos mais sensíveis da obra, “mas eles estarão no livro. Não fugiremos dos pontos mais polêmicos”, afirma.
Essa não é a primeira vez que o quadrinista leva Gato, Pedro Bala, Sem-Pernas, Professor e outros tantos personagens para os quadrinhos. Em 2007, ele foi convidado pela Editora Globo a fazer uma amostra de quatro páginas do livro, mas a HQ não foi publicada, uma vez que os direitos de Jorge Amado foram para a Companhia das Letras. “Então, muito tempo depois, aí por 2023, a Cia. das Letras me convida para participar da concorrência por fazer o quadrinho. Eu reapresentei as mesmas páginas feitas em 2007 e fui o escolhido“, conta.
Desde então, Rodrigo tem intercalado as atividades na Figura com a produção da adaptação. Um trabalho de fôlego, em suas próprias palavras. Além de reler cada capítulo, já preparando uma decupagem em páginas, o artista faz pesquisas iconográficas, o que rendeu uma visita à capital baiana em busca de referências. “A fase seguinte é fazer um estudo dos personagens principais. Definido isso, parto para o layout de páginas e um esboço da primeira versão do roteiro, do texto”, completa. À medida que os capítulos vão sendo finalizados, ele envia aos editores para a avaliação. Será possível conferir parte do processo na página do quadrinista no Instagram.

Capitães em outras mídias
Em 2011, “Capitães da Areia” foi adaptado para os cinemas pela neta do autor, Cecília Amado. A produção teve elenco formado a partir de pesquisas em comunidades carentes de Salvador, em parceria com 22 ONGs. Cerca de 40 anos antes, estreou “The Sandpit Generals”, uma versão cinematográfica norte-americana pouco conhecida da obra, afinal nunca chegou ao Brasil oficialmente. O filme, no entanto, foi um sucesso na União Soviética.
Nos quadrinhos, Ruy Trindade fez uma versão de 180 páginas do livro, publicada pela Empresa Gráfica da Bahia (Egba) em 1995. A distribuição foi focada nas escolas do estado.









