
Quadrinhos produzidos por artistas indígenas de diversas partes do Brasil foram reunidos na antologia “Territórios Compartilhados”, lançada em dezembro de 2025. Segundo os idealizadores do projeto, a coletânea busca romper com o olhar do “etnoentretenimento” e do eurocentrismo.
O trabalho foi organizado por Eá Borum Krenak, que também foi o responsável por uma das histórias presentes na edição. Ele destacou em entrevista à webrádio indígena Yandê que os quadrinhos são uma mídia com grande potencial de experimentação, uma forma de expandir a oralidade. Ele ressalta que desde Ângelo Agostini, no século XIX, os indígenas estavam presentes nos quadrinhos, mas de uma maneira abolicionista e romantizada: “Já está na hora de sermos nossos próprios protagonistas, roteirizar nossas narrativas sem passar por mediações outras que não a da língua portuguesa – só por estratégia de alcance”, diz.
O artista conta que este trabalho é uma forma de “ocupação midiática”. “Seria maravilhoso ter nossas histórias nas escolas dos diferentes Territórios Indígenas e, pela primeira vez, nossos jovens se identifiquem com o que estão lendo e vendo, não apenas aceitando um conteúdo sem conexão com a vida dos povos indígenas”, observa Eá Borum Krenak
As histórias fogem do formato tradicional, e trazem uma variedade de estilos com narrativas que seguem as tradições e ritmos dos povos originários. Confira os artistas participantes:
– “Os Sons da Mata”: Merremi Karão Jaguaribaras
A história traz uma arte abstrata e carregada de elementos da cosmovisão com os taowás, escrita visual do seu povo.
– “Djepotá”: Genilson Silva M’byá (roteiro) e Moara Tupinambá (arte)
Além de se inspirar nas narrativas tradicionais de Genilson Silva Guarani M’bya, a HQ Folk-Terror com traços expressionistas é a primeira com diálogos escritos em língua guarani.
– “Entre a Terra e o Espírito”: Marcela Poenna (roteiro) e TΔI (arte)
As artistas abordam no quadrinho abordam o respeito aos Encantados e o processo de retomada.
– “Acessibilindígena”: Siana Tentehar Guajajara (Idealizadora do coletivo) e Milene Correia (Colaboradora artística)
Coleção de tiras produzidas pelo Coletivo Acessibilindígena, que denunciam a invisibilidade das pessoas indígenas com deficiência.
– “Bady” (Retomada) – Nathalia Kariri (roteiro) e Caio Ananias (arte)
A HQ é uma versão em quadrinhos da poesia autobiográfica de Kariri, que conta a migração indígena nordestina para São Paulo.
– “Pö Pothick Jukanam” (As Seis Almas) – Eá Borum Krenak
O quadrinho faz um releitura de uma tradição oral, fazendo paralelos com a expulsão dos indígenas seu território tradicional pela mineração.
– “Tecnoanhang” – Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe (roteiro) e Alexandra Tupinambá Krenak (arte)
História descrita como Indigenafuturismo, que funde elementos da ancestralidade e da ficção científica para projetar novos imaginários tecnológicos.
Publicado pelo hub de comunicação, design e gestão Keikolina, a edição teve apoio do edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024. A obra já está disponível no site do projeto. Os lucros da venda da HQ, além de financiar os artistas participantes, estão sendo revertidos para a produção de uma audiodescrição da obra, para torná-la acessível para pessoas com deficiência visual.













