Antologia reúne quadrinhos de artistas indígenas de todo o país

Obra propõe novas narrativas fora do eurocentrismo com sete histórias de diversos artistas.

11 fevereiro 2026

Quadrinhos produzidos por artistas indígenas de diversas partes do Brasil foram reunidos na antologia “Territórios Compartilhados”, lançada em dezembro de 2025. Segundo os idealizadores do projeto, a coletânea busca romper com o olhar do “etnoentretenimento” e do eurocentrismo.

O trabalho foi organizado por Eá Borum Krenak, que também foi o responsável por uma das histórias presentes na edição. Ele destacou em entrevista à webrádio indígena Yandê que os quadrinhos são uma mídia com grande potencial de experimentação, uma forma de expandir a oralidade. Ele ressalta que desde Ângelo Agostini, no século XIX, os indígenas estavam presentes nos quadrinhos, mas de uma maneira abolicionista e romantizada: “Já está na hora de sermos nossos próprios protagonistas, roteirizar nossas narrativas sem passar por mediações outras que não a da língua portuguesa – só por estratégia de alcance”, diz.

O artista conta que este trabalho é uma forma de “ocupação midiática”. “Seria maravilhoso ter nossas histórias nas escolas dos diferentes Territórios Indígenas e, pela primeira vez, nossos jovens se identifiquem com o que estão lendo e vendo, não apenas aceitando um conteúdo sem conexão com a vida dos povos indígenas”, observa Eá Borum Krenak

As histórias fogem do formato tradicional, e trazem uma variedade de estilos com narrativas que seguem as tradições e ritmos dos povos originários. Confira os artistas participantes:

– “Os Sons da Mata”: Merremi Karão Jaguaribaras
A história traz uma arte abstrata e carregada de elementos da cosmovisão com os taowás, escrita visual do seu povo.

– “Djepotá”: Genilson Silva M’byá (roteiro) e Moara Tupinambá (arte)
Além de se inspirar nas narrativas tradicionais de Genilson Silva Guarani M’bya, a HQ Folk-Terror com traços expressionistas é a primeira com diálogos escritos em língua guarani.

– “Entre a Terra e o Espírito”: Marcela Poenna (roteiro) e TΔI (arte)
As artistas abordam no quadrinho abordam o respeito aos Encantados e o processo de retomada.

– “Acessibilindígena”: Siana Tentehar Guajajara (Idealizadora do coletivo) e Milene Correia (Colaboradora artística)
Coleção de tiras produzidas pelo Coletivo Acessibilindígena, que denunciam a invisibilidade das pessoas indígenas com deficiência.

– “Bady” (Retomada) – Nathalia Kariri (roteiro) e Caio Ananias (arte)
A HQ é uma versão em quadrinhos da poesia autobiográfica de Kariri, que conta a migração indígena nordestina para São Paulo.

– “Pö Pothick Jukanam” (As Seis Almas) – Eá Borum Krenak
O quadrinho faz um releitura de uma tradição oral, fazendo paralelos com a expulsão dos indígenas seu território tradicional pela mineração.

– “Tecnoanhang” – Anápuàka Tupinambá Hãhãhãe (roteiro) e Alexandra Tupinambá Krenak (arte)
História descrita como Indigenafuturismo, que funde elementos da ancestralidade e da ficção científica para projetar novos imaginários tecnológicos.

Publicado pelo hub de comunicação, design e gestão Keikolina, a edição teve apoio do edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024. A obra já está disponível no site do projeto. Os lucros da venda da HQ, além de financiar os artistas participantes, estão sendo revertidos para a produção de uma audiodescrição da obra, para torná-la acessível para pessoas com deficiência visual.

Carrinho atualizado